5. Do Politeísmo da Mitologia
Grega ao Monoteísmo das Religiões Judaico-Cristãs
Fundamentadas pelo Conceito de Arquétipo Junguiano
Linha de pesquisa: Uma pesquisa bibliográfica
de referencial junguiano.
ÍNDICE:
- TÍTULO
- INTRODUÇÃO
- PROBLEMA DE PESQUISA
- JUSTIFICATIVA
- CAPÍTULO I - IMPORTÂNCIA DA RELIGIÃO PARA O HOMEM.
- CAPÍTULO II - CONCEITOS DA PSICOLOGIA ANALÍTICA: ARQUÉTIPOS
(ANIMA, ANIMUS, SOMBRA, PERSONA E SELF) E ARQUÉTIPOS DO BEM E
DO MAL
- CAPÍTULO III - HISTÓRICO DE SURGIMENTO E MANUTENÇÃO
DAS RELIGIÕES: CRISTIANISMO, ZOROASTRISMO E POLITEÍSMO
GREGO.
- CAPÍTULO IV - METODOLOGIA
- CAPÍTULO V - ANÁLISE DE DADOS / CONCLUSÕES
- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
INTRODUÇÃO:
As religiões andam em voga nos
noticiários de todo o mundo, principalmente desde o atentado
das torres gêmeas em 11 de setembro. A estruturação
das religiões tem sido usada como motivo para guerras ou máscara
para outros interesses, quase sempre econômicos, contidos nestes
conflitos. Discutem-se povos melhores e piores levando em conta a religião
destes. Quem participa deste tipo de ranqueamento não se da conta
da raiz comum que as une em todo o mundo - A tendência humana
em buscar algo além em que acreditar. É desta propensão
inerente ao homem, segundo Jung, que surgem as religiões em suas
mais diversas formas.
Jung lia religião como religio ou religare, que seria - ligar
novamente - ou seja, a religião como responsável por unir
consciente e fatores inconscientes imprescindíveis. Araújo,
(2001) nos conta que Jung se apropria do termo de R. Otto- numinoso-
para definir a relação com os conteúdos da religião
e a emoção dos que os vivenciam. "Via, então,
a religião como uma observação conscienciosa e
acurada do numinoso, ou seja, um efeito dinâmico ou existência
que domina o ser humano; é independente da sua vontade".(Araújo,
2001).
Segundo Silveira (1994) todas as religiões têm origem no
inconsciente se manifestando através de diferentes formas e adquirindo
milhares de representações. "... venham eles por
sonhos, visões ou êxtases e apresentem-se como deuses,
demônios ou espíritos". (Araújo, 2001). Ainda
Silveira, afirma que não existe um Deus ou uma forma de transcendência,
mas tão somente arquétipos "do mesmo solo materno
em que outrora se formaram, sem exceção, todos os sistemas
filosófico-religiosos". (Jung, 1988, p.77).
Até aqui desenvolvemos a relação das religiões
com o humano e entre si, mas ainda que se aprofunde estas questões
o lugar da prática psicológica além da teoria junguiana
não fica claro até que se trate a religiosidade como aspecto
inerente ao ser. Seguindo esta lógica de Jung, a religiosidade
é uma função psíquica que poderia ser (assim
como qualquer outra) desenvolvida ou reprimida. Já que toda função
psíquica busca meios de se expressar isto poderia ser feito das
mais diversas formas, construindo assim credos e religiões distintas,
porém o "problema Deus" está em todo homem e
o impele a uma postura religiosa que precisa irromper e se expressar
no consciente.
Seguindo estas considerações Araújo defende que
é papel do psicólogo auxiliar o cliente na busca religiosa
(do re-ligar) genuína. Uma atitude sincera com o numinoso que
é ainda o Si - mesmo. Talvez nesta busca o encontro do outro
como igual seja uma resposta possível e mais proveitosa que o
acirramento das guerras "santas".
Para Jung (1995) a única coisa que se pode dizer de Deus em psicologia
é que há uma imagem arquetípica de divindade. Ele
se vale dos termos Deus e divindade de forma simbólica, pois:
"Ambos se encontram como tais, muito além do alcance humano.
Revelam-se a nós como imagens psíquicas, isto é,
como símbolos". (Jung, 2000, p. 296).
O símbolo é uma forma de expressar algo que não
se pode falar claramente. E sempre carregados de afetividade que é
o que os retira da condição de meros signos para a esfera
da simbolização. Neste momento discutiremos os símbolos
religiosos.
O termo símbolo vem do grego sýmbolon que é algo
como "arremessar ao mesmo tempo". De forma clara é
um conceito de equivalência, afinal o símbolo representa
sempre mais do que seu significado evidente e imediato e assim precisa
ser para atender ao propósito de comunicar o incomunicável.
Na religião o símbolo é colocado para se transmitir
histórias míticas, mitos, que compõem aquela seita.
O mito é sempre uma representação coletiva, transmitida
aos descendentes para explicar o mundo. Ele é ainda sentido e
vivido. Palavra que circunscreve um acontecimento, narra uma criação,
diz do que não existia e como passou a existir. Segundo Goethe
em citação de Campbell (1997), os mitos são as
relações permanentes da vida. Fala sempre das relações
humanas e não é nem poderia ser lógico, pois se
presta a todas as interpretações.
Para ilustrar temos as palavras de Moyers no livro de J. Campbell (1997,
pp.5): "Mitos são histórias de nossa busca de verdade,
de sentido, de significação, através dos tempos...
Precisamos que a vida tenha significação, precisamos tocar
o eterno, compreender o misterioso, descobrir o que somos".
Mais diretamente para C. G. Jung, mito é a conscientização
de arquétipos do inconsciente coletivo, uma união de consciente
e inconsciente coletivo, assim como as formas através das quais
o inconsciente se manifesta. O mito é aquele que remete, o rito
é sua ação.
Após a definição de mito resta ter claro o que
é mitologia. Na sua origem, mitologia é "movimento",
movimentação de elementos arcaicos (arquétipos)
tradicionalmente transmitidos, sujeitos, portanto a transformações.
Mesmo sendo transformados serão ainda expressões de um
arquétipo
Para Mircea Elíade: "Um
objeto ou um ato não se tornam reais, a não ser na medida
em que repetem um arquétipo. Assim a realidade se adquire exclusivamente
pela repetição ou participação; tudo que
não possui um modelo exemplar é vazio de sentido, isto
é, carece de realidade".
É da simbolização dos mitos e sua relação
direta com a expressão dos arquétipos do inconsciente
coletivo que pretendemos tratar neste trabalho. Percebemos, como coloca
que ainda que se trate de um símbolo religioso bem definido,
sempre corresponderá aos do Self, uma expressão da idéia
e da presença de algo de Deus que manifesta a totalidade psíquica
através de experiências psicológicas.
Com o objetivo de comprovar o postulado por Jung e aqui explicitado
sobre a mitologia religiosa e os arquétipos resolvemos desenvolver
este trabalho que utiliza estes conceitos para relacionar religiões,
duas que estão sendo contrapostas pela mídia - islamismo
e catolicismo - o zoroastrismo (primeira religião a dividir bem
e mal e se encaminhar para o monoteísmo) e o politeísmo
da Grécia antiga, berço de toda a cultura ocidental.
O campo de ação com o avanço da pesquisa acabou
não incluindo mais o islamismo que fica como possibilidade de
exploração para próximos projetos, porém
mantivemos o trabalho com todas as outras religiões. Concluímos
aqui que existe sim ressonância desta energia arquetípica
em diferentes mitos das religiões estudadas sendo possível
identificar os arquétipos, assim como descritos por Jung, em
cada uma das religiões.
OBJETIVOS / PROBLEMA DE PESQUISA
Nosso objetivo aqui foi comparar os
conteúdos históricos e simbólicos das religiões
a partir do conceito de arquétipo dado por Jung. Desta comparação
pretendeu-se extrair respostas sobre em que aspectos e de quais arquétipos
estas religiões se aproximam e se afastam.
Buscou-se saber de que forma esses arquétipos, especificamente:
anima, animus, persona, sombra e Self, além da dualidade Bem
e Mal, influenciaram na concepção mítica e religiosa
do homem desde a antiguidade. O trabalho presente com a relação
religiões/ teoria junguiana pretendeu gerar debates e conclusões.
O trabalho consiste na leitura de alguns livros da Bíblia cristã,
histórias da mitologia grega retiradas da Teogonia de Hesíodo
e partes do livro sagrado do zoroastrismo. Assim percorre-se o caminho
do politeísmo ao monoteísmo e como este se difundiu pelo
mundo para então comprovar a existência dos mesmos conteúdos
arquetípicos apesar de expressos em símbolos próprios
a estas religiões.
JUSTIFICATIVA
"... as divindades gregas antecederam
e permearam quase todos os símbolos religiosos da cultura judaico-cristã,
assim como a arte e a literatura de todo o Ocidente, permanecendo como
imagens precisas e fundamentais que operam na psique humana. (...) A
Psicologia utiliza a palavra 'arquétipo' para descrever essas
imagens, que são universais e existem em todas as pessoas de
todas as civilizações e culturas, em todos os períodos
da História".
(Juliet Sharman-Burke e Liz Greene).
O presente trabalho tem o objetivo de
integrar o conceito junguiano de arquétipo com a Teogonia de
Hesíodo, com a Bíblia e com o Zend avesta do zoroastrismo,
buscando analisar dentro de uma abordagem psicológica a busca
do divino no homem.
O início da investigação deu-se a partir da discussão
dos conceitos que o Prof. Dr. Efraim desenvolveu em seu livro "A
Nova e a Velha Mitologia". Neste, o autor discute do ponto de vista
psicológico os arquétipos, os deuses gregos e a linha
teórica escolhida por cada terapeuta.
A importância de se estudar o arquétipo se respalda na
necessidade de entender como essa energia coletiva e inconsciente, que
se manifesta no comportamento humano principalmente em sua vocação,
pode tornar-se energia de realização.
O estudo das influências dos arquétipos
é validado pelos diferentes tipos de comportamentos religiosos
notados atualmente que tiveram sua construção devido à
perpetuação da cultura da Antigüidade.
Esse estudo pretende levar o indivíduo a tomar conhecimento dos
arquétipos, assim, se tornando consciente do processo de ressonância
das energias arquetípicas que o perpassa.
O presente trabalho consiste em uma pesquisa
bibliográfica que analisa comparativamente os relatos presentes
na base do cristianismo, do zoroastrismo e da mitologia grega com relação
a expressão dos arquétipos principais descritos por Jung
- persona, sombra, anima, animus e self. Buscou-se aqui encontrar aspectos
comuns às religiões e os pontos onde elas se distanciavam.
Para demonstrar este movimento de expressão semelhante independente
da raiz da religião buscou-se uma monoteísta, uma politeísta
e uma dual, de transição. Fez-se presente também
a necessidade de demonstrar as semelhanças e diferenças
quando se falava da polaridade arquetípica bem e mal que é
um dos pilares de toda religião. Jung conta da busca do sagrado
no homem como inerente a sua existência e da possibilidade de
experienciar o numinoso. Ele lê todos os relatos religiosos como
expressão das mesmas energias anteriores às próprias
religiões, os arquétipos, e aqui se pôde comprovar
isto. Em todas as religiões estudadas através de seus
livros sagrados ou livros explicativos do funcionamento delas, encontramos
a virgem que eleva o amor a dimensão espiritual, a ameaça
que deve ser destruída, a máscara através da qual
se torna possível comunicar algo e a figura repleta de adjetivos
que torna viável qualquer possibilidade do ser além de
diversas outras imagens que expressam os mesmos arquétipos, porém
muitas vezes enfatizando diferentes características. Imagina-se
ser esta não uma pesquisa de fechamento, mas mais uma contribuição
no caminho do reconhecimento da importância da busca do sagrado
no homem e da compreensão da teoria junguiano.
Palavras - chave: Religião; Arquétipo
CAPÍTULO I - IMPORTÂNCIA DA RELIGIÃO PARA O HOMEM
"Antes de falar em religião,
devo explicar o que entendo por este termo. Religião é
- como diz o vocábulo latino religere - uma acurada e conscienciosa
observação daquilo que Rudolf Otto acertadamente chamou
de numinoso, isto é, uma existência ou um efeito dinâmico
não causados por um ato arbitrário. Pelo contrário,
o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vítima
do que seu criador. Qualquer que seja a sua causa o numinoso constitui
uma condição do sujeito, e é independente de sua
vontade (...), a doutrina religiosa mostra-nos invariavelmente e em
toda parte que esta condição deve estar ligada a uma causa
externa ao indivíduo. O numinoso pode ser a propriedade de um
objeto visível, ou o influxo de uma presença invisível,
que produzem uma modificação especial na consciência.
Tal é, pelo menos, a regra universal"(Jung, 1988).
O efeito do numinoso é o que
se chamou para Buda de iluminação. É uma mudança
do nível de consciência que eleva a um estado de exaltação
psíquica que leva além da transcendência.
Seriam então os milagres, as visões e todos os eventos
relacionados a estes momentos de numinoso, experiências numinosas,
pois modificam os crentes que passam por eles e ocorrem independentemente
do esforço do contemplado.
A experiência do numinoso e a busca por algo maior (um deus, energia
ou força) caracterizam todos os povos ao longo do desenvolvimento
da humanidade. A religião é uma função psicológica
extremamente importante para o indivíduo e a sua recusa resulta
em problemas psicológicos tanto quanto o mau relacionamento com
outras funções. Diversas vezes Jung encontrou nos sonhos
de seus pacientes, a simbologia religiosa para indicar problemas de
outra ordem e diversas outras vezes encontrou problemas que apenas com
o reencontro com aspectos da religião puderam se solucionar.
Na mitologia grega, a mais antiga das religiões aqui estudadas,
já podemos observar o relacionamento com o numinoso, nos mitos
sobre curas fantásticas e dons cedidos pelos deuses, além
da eterna busca de contato com estes por parte do povo. Visitando os
templos, fazendo oferendas, erguendo altares e consultando os sacerdotes,
estes sim que - em transe - teriam um contato direto com os deuses e
possivelmente uma experiência numinosa.
O termo religião pode ser dividido em duas visões diferentes.
A primeira é uma confissão que se coloca numa profissão
de fé determinada; a segunda uma experiência onde o homem
entra em contato com o sagrado que lhe gera o sentimento do numinoso.
Acreditamos que a religião em si seria realmente mais ligada
a segunda definição. A confissão seria a função
social do dogma e do rito, constituindo assim uma parte da religião,
porém não seu sinônimo.
As religiões surgem dos mesmos conteúdos inconscientes,
se manifestando das mais diversas formas. Sendo assim Silveira (1994)
deduz então que não existe Deus ou uma forma pré-determinada,
mas somente estes conteúdos energéticos. Existem apenas
arquétipos que mesmo sendo os mesmos dão origem aos mais
diversos deuses de todas as religiões.
Este conteúdo simbólico que permeia todas as religiões
é assim resumido por Jung: "Sob a forma abstrata, os símbolos
são idéias religiosas, sob a forma de ação
são ritos ou cerimônias". (Jung, 1997, p.45).
A devoção religiosa, a necessidade de reverenciar se observa
também na importância dada aos fatos na ciência e
no crente temperamento científico. Assim também é
o culto de personalidades, cantores e atores como se observa nos dias
de hoje. "Quando se torna modelo para a vida dos outros a pessoa
se move para uma esfera tal que se torna passível de ser mitologizada"
(Campbell, 1997 pp. 16).
CAPÍTULO II - CONCEITOS DA PSICOLOGIA
ANALÍTICA: ARQUÉTIPOS (ANIMA, ANIMUS, SOMBRA, PERSONA
E SELF) E ARQUÉTIPOS DO BEM E DO MAL
Com o estabelecimento da religião
católica veio também a cristianização de
deuses e festas hereges como o carnaval onde é colocada a 4a
feira de cinzas como momento de purgar os pecados da festa, o nascimento
de Cristo no solstício de inverno, a Páscoa cristã
na mesma época da hebréia (muda de data porque é
referente à lua cheia em Áries). Esta incorporação
cultural leva o nome de Sizígia. Esta sobreposição
das datas, também é vista por um panorama relativo ao
inconsciente coletivo, que seria a manifestação do mesmo
arquétipo nas diferentes religiões. O religioso que incluí
a festa pagã no calendário cristão recebe a influência
do arquétipo também. Resumindo, a incorporação
da festa pagã no calendário cristão, ou apropriações
religiosas semelhantes, envolve dois aspectos: a apropriação
de ritos religiosos anteriores, e a ressonância com o arquétipo
que se manifestava na festa pagã.
Mas sendo o mesmo arquétipo, por
que as imagens não são exatamente as mesmas? Segundo a
teoria junguiana mesmo sendo a mesma energia ela se expressa de forma
diferente para as diferentes culturas e pessoas. Sendo estas, por sua
vez, já diferentes em outros aspectos, acabam expressando de
forma diferente os arquétipos.
"As imagens cristãs semelhantes
às pagãs já existiam quando a humanidade ainda
não tinha aprendido a planejar tarefas e sempre podem reaparecer,
são as imagens arquetípicas". (Jung, 1988).
"Sua particularidade mais inerente
é o caráter mítico. É como se pertencesse
à humanidade em geral, e não a uma determinada psique
individual" (Jung, 1972).
O arquétipo é o material
coletivo que constitui a mitologia. Especificando melhor, inconsciente
coletivo é a herança das vivências das gerações
anteriores, enquanto os arquétipos, do grego arkhétypos
(primitivo, idéias inatas) seriam um padrão desses conteúdos
hereditários do inconsciente coletivo que organizam o desenvolvimento
psicológico com os símbolos. Derivam de matrizes arquetípicas
podendo assumir formas diferentes gerando imagens arquetípicas.
Suas manifestações não teriam a ver com consciência,
mas sim condicionamentos instintivos. São arquétipos,
por exemplo, a anima, animus, self, persona e sombra. (Jung, 1988)
A relação destes arquétipos
e o inconsciente coletivo é explicitada pelo mesmo Jung quando
este se refere as camadas mais profundas da psique inconsciente: "Desse
nível derivam conteúdos de caráter mitológico
ou impessoal, em outras palavras, os arquétipos e denominei-os
inconsciente coletivo ou impessoal" (Jung, 1972).
Não temos acesso direto a energia
inconsciente coletiva assim como à individual. Nós conseguimos
apenas perceber manifestações desta energia e postular
a existência do inconsciente coletivo.
Percebemos estas manifestações
nas ações e narrativas mitológicas, o endeusamento
dos guerreiros vitoriosos, assim como expressões artísticas
e religiões.
Em "Fundamentos da psicologia analítica",
Jung prossegue definindo arquétipo: "Arquétipo significa
um (impressão, marca impressão), um agrupamento
definido de caracteres arcaicos, que, em forma e significado, encerra
motivos mitológicos, os quais surgem em forma pura nos contos
de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore" (Jung, 1972).
"Mas uma das regras da Psicologia
diz-nos que o arquétipo que perdeu sua hipóstase metafísica
(realidade de uma entidade metafísica) se identifica com a consciência
individual, a influência e a transforma segundo as suas tendências.
E como o arquétipo possui sempre uma certa numinosidade sua integração
produz, em geral, uma inflação do sujeito (...)"
(Jung, 1988). Neste mesmo trecho do livro Jung prossegue falando de
um caso específico que pode ser usado como ilustração
da interferência do conteúdo individual no coletivo. "Como
os indivíduos não estão separados uns dos outros
por compartimentos estanques, esta inflação infecciosa
se alastrou de maneira geral, produzindo uma insegurança moral
e ideológica verdadeiramente notável" (Jung, 1988).
Assim ele alerta para o perigo de uma sociedade imbuída dos mesmos
aspectos de um arquétipo, como foi a Alemanha nazista. Quando
algo pode se iniciar do arquétipo para o indivíduo, mas
uma vez vivenciado socialmente perde o caráter individual e as
pessoas isoladamente perdem a capacidade de se diferenciar.
A justificativa para que existam estes
conteúdos arcaicos no homem atual é feita, por Jung, através
de uma analogia com a evolução física humana que
resultou num homem que ainda traz traços dos peixes, primata
etc. Esse paralelo é resumido assim: "Nossa mente inconsciente,
bem como nosso corpo, é um depositório de relíquias
e memórias do passado" (Jung, 1972).
Jung chega a definir alguns arquétipos,
porém fala de cinco deles como extremamente importantes para
a constituição do ser humano e que podem ser expressos
pelas mais diversas imagens. Estes seriam: anima, animus, persona, sombra
e self. No nosso trabalho incluiremos também a dualidade arquetípica
do bem e do mal.
Anima e Animus:
A anima é o elemento feminino no homem, mediador de nível
consciente e inconsciente enquanto o animus cumpre semelhante papel,
sendo elemento masculino na mulher. Eles auxiliam que conteúdos
inconscientes possam ser realizados conscientemente. São geralmente
as partes da sombra que se projetam no outro, do sexo oposto devido
a esta mediação consciente/ inconsciente realizada pela
anima e pelo animus.
"Anima é a personificação de todas as tendências
psicológicas femininas na psique do homem - os humores e sentimentos
instáveis, as intuições proféticas, a receptividade
ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza
e, por fim, mas nem por isso menos importante, o relacionamento com
o inconsciente" (von Franz, 1964).
Ela é ainda responsável pela graça, dança
e busca do belo.
A anima pode ter papel não só de mediadora, mas também
de guia entre o mundo interior e o self. Sua expressão pode trazer
a tona aspectos negativos ou positivos e a forma como o indivíduo
se relaciona com a sua anima fará toda a diferença no
lidar com os aspectos apresentados. É ela que ajuda o homem a
discernir fatos escondidos em seu inconsciente e que o espírito
lógico não é capaz de compreender.
"...o núcleo da psique (o self) expressa-se, normalmente,
sob alguma forma de estrutura quaternária. O número quatro
está sempre ligado à anima porque, segundo Jung, existem
quatro estágios no seu desenvolvimento. O primeiro está
bem simbolizado na figura de Eva, que representa o relacionamento puramente
instintivo e biológico; o segundo pode ser representado pela
Helena de Fausto: ela personifica um nível romântico e
estético que, no entanto, é também caracterizado
por elementos sexuais. O terceiro estágio poderia ser exemplificado
pela Virgem Maria - uma figura que eleva o amor (Eros) à grandeza
da devoção espiritual. O quarto estágio é
simbolizado pela Sapiência, a sabedoria que transcende até
mesmo a pureza e a santidade, como a Sulamita dos Cânticos de
Salomão" (von Franz, 1964).
Outras imagens arquetípicas da
anima seriam Afrodite, Helena (Selene), Perséfone e Hécate.
Expressões de seus diversos aspectos.
O quaternário, composto de 4 pontas
é símbolo de totalidade em diversas religiões.
Totalidade de experiência, percepção etc. Uma totalidade
que se refere somente à dimensão consciente. O quaternário
se opõe a outro importante símbolo, a trindade, sendo
o primeiro feminino e o segundo masculino. O Quaternário faz
referência a Gaia. É também o símbolo da
matéria, portanto da tentação e conseqüentemente
do mal.
Com estas aproximações
o símbolo da quaternidade fica muito próximo da imagem
de Eva. Mulher que se une à víbora, conspiradora e responsável
pela tentação. União da mulher e do mal. A discussão
da quaternidade como totalidade e integração ou como detentora
de aspecto negativo perpassa diversas religiões e toma diferentes
caminhos.
A anima, enquanto elemento feminino no
homem, se contrapõe ao animus, elemento masculino na mulher,
formando um par de opostos como yin e yang do taoísmo, ou Psique
e Logos.
Psiquê é fonte de energia
e se refere a tudo que é emocional. Faz contraposição
ao Logos que é o pensamento que se transforma em palavra no nível
lógico. É nele que se formulam conceitos, a visão
parada de algo dinâmico. A integração dos dois gera
um triângulo, uma trindade, que tem como vértice superior
o Pneuma, que é o sopro vital, o espírito, movimento e
emoções. Ele é a soma de lógica consciente
e emoção.
Além do sopro vital existe o pensamento
criativo de Deus que também se relaciona à psique e logos.
Nous é o pensamento criador de Deus e se equivale a noem que
seria ver com a mente/ intuir/ função referente à
Psique, que não passa pelo pensamento, pela explicação
e que pode ou não virar pensamento lógico, referente a
Logos. O nous divide-se em apofântico (lógico), patético
(emocional), poyético (criativo).
Espírito e alma são diferentes
quando examinados por este olhar, ainda que no século 9 em concílio
católico se afirme que são a mesma coisa. Tendemos aqui
a discordar do postulado católico. O Espírito é
a ligação a valores que transcendem o indivíduo
sendo igual a Pneuma, mas não à alma. Esta equivale a
aspectos psíquicos emocionais. Ela é equivalente ao Self
mortal enquanto o espírito é a faísca divina no
humano, um Self superior, imortal.
O animus intermediário, um mediador,
como a anima, tem a imagem arquetípica ligada às múltiplas
facetas de Hermes.
Ao masculino, como já dito, se
associa o triângulo/ a trindade. A trindade, por sua vez, não
é uma forma completa, pois exclui o demônio. O cristianismo
lê então a quaternidade não como o todo, mas como
obra do demônio.
O triângulo eqüilátero
corresponde à trindade cristã que integra Pai, filho e
Espírito Santo, onde qualquer um deles pode estar no topo, tanto
o pai - o criador de tudo - quanto o filho - único com condição
imortal e mortal ou o espírito santo - andrógino dotado
de características femininas e masculinas. O Espírito
que podemos identificar com a anima e com o animus, Cristo que podemos
ver como imagem arquetípica do Self e Deus, além da nossa
compreensão e definição em categorias humanas.
Esta trindade pode sim ser vista como
o resultado de uma religião patriarcal que coloca a mulher em
segundo plano, ainda associada a imagem de Eva e portanto, ao mal. A
mulher sem pecado e, portanto colocada como mãe por esta religião
- Maria - não é integrada à santíssima trindade
e, portanto ao equilíbrio energético que rege a religião
católica.
O par de opostos, não só
neste caso, é necessário para nossa percepção,
não que seja assim, mas é assim que conseguimos perceber
o equilíbrio que a energia busca. A comparação
é o nosso meio, modo humano, de aprender e se adaptar. Não
existe rigidez na divisão de características e funções
de anima e animus, Psiquê e Logos, na teoria junguiana.
Sombra:
A sombra funciona psiquicamente como sua própria imagem. Quando
se olha para a luz não se sabe da existência da sombra,
quando se vira contra a luz a sombra é então percebida.
Esta compreende não só partes da anima ou do animus como
também aspectos inconscientes e conscientes que foram considerados
indesejáveis, mas que não necessariamente são negativos
podendo inclusive ser importantes para o indivíduo, sendo importante
que o maior número de aspectos da sombra sejam trabalhados e
integrados de forma positiva no indivíduo. Certamente, porém,
são características com as quais as pessoas não
sabem lidar. Em resumo, é aquela parte abandonada da psique na
construção de uma persona. Devido a este caráter
depreciativo atribuído aos conteúdos da sombra ela costuma
ser relacionada a imagens assustadoras e persecutórias.
O diabo é a sombra do Deus positivo.
Nele se encerram as características que não cabem a um
Deus que seja só bem. Esta distinção bem e mal
é uma projeção humana, uma maneira de classificar
o que não se encaixa em nossas categorias, como já dito
anteriormente. Os deuses têm bem e mal e o Deus que está
por trás de todas as tradições é o mesmo
Deus em termos de onipresença, onipotência, onisciência
e energia arquetípica.
Integrar aspectos da sombra incluí
não só tomar consciência de sua existência
como lhes dar um lugar, que no caso de aspectos negativos significa
um lugar onde ele possa ser observado pelo sujeito possa adquirir características
positivas e não simplesmente satisfazê-lo.
Integram-se aspectos que já fazem
parte de nós, esta sombra também é parte do ser.
Nada pode explodir em nós que já não existisse
de antemão. Os aspectos do arquétipo que se integram já
estavam lá antes da integração, seja que arquétipo
for.
Persona:
O termo surge do nome das máscaras
que eram utilizadas pelos atores no teatro grego. Para Jung persona
é o conjunto de características através do qual
você se relaciona com o mundo. Ela é construída
a partir de tudo aquilo que se seleciona como adjetivo importante para
se estar no mundo. Quando um dado é considerado não desejável
ele é enviado para a sombra, quando se necessita incorporar algo
a persona é na sombra que se vai resgata-lo.
Ela é o espaço que possibilita a incorporação.
Lócus em eterna construção, nunca acabado, e sempre
referenciado na aceitação do outro. É ela quem
dá a forma do humano que se conhece socialmente.
As características da sombra só são incorporadas
à consciência e persona humanas quando adaptadas sem oferecer
risco a ninguém, porém fazer parte da persona é
o único meio saudável que uma característica tem
para aparecer.
Self:
O Self nada mais é que todas as possibilidades do humano; sendo
assim podemos ver nas palavras de Campbell, 1997, a reflexão
de que "os mitos são metáforas da potencialidade
espiritual do ser humano, e os mesmos poderes que animam nossa vida
animam a vida do mundo".
Jung (1988) estabelece um paralelo entre
Cristo e Adão Cadmon, o 2o Adão, o Adão Celeste
com relação ao self, porém como relacioná-los
tendo Cristo a dimensão e a vivência humana? A união
destas duas imagens nos pareceu impossível, sugerem imagens diferentes
e expressam elementos diversos.
Este segundo Adão, homo philosophicus
é diferente do 1o Adão porque este é imortal e
composto de essência pura e imperecível. Na teologia hebraica
este Adão é pura energia e um arquétipo do ser
humano. As estrelas de Áries são sua cabeça, pulmões
em gêmeos, coração de leão, genitais em escorpião,
sagitário - coxas, capricórnio - joelhos.
Como pode este ser o arquétipo
do ser humano, relacionar-se a Cristo, sendo uma construção
sem nenhuma dimensão mortal? O homo Adamicus, o 1o Adão,
traz a Eva escondida em seu próprio corpo. Não existe
Eva, nem pecado nem contradição neste 2o Adão.
Seria um Adão sem conflito com a sombra. Ocorreu a morte do velho
Adão e o surgimento de um novo homem. Este Adão era mortal
porque era composto de 4 elementos perecíveis. O novo homem surge
com o novo Adão assim como a nova humanidade surge com o filho
de Deus, mas ainda assim parece ser este Adão Celeste mais uma
das expressões equivalentes à ascensão de Cristo,
mas não uma figura do mesmo porte se avaliadas globalmente.
A relação do Self diretamente
com a imagem de Deus é uma possibilidade apresentada por alguns
autores como Silveira (1994), porém Deus é uma figura
além da categorização humana e para alinharmos
uma figura a "todas as possibilidades do ser humano" esta
figura precisa ao menos ter alguma dimensão mortal. Esta linha
de raciocínio nos leva a concluir que a analogia com Cristo é
a mais acertada e será aqui utilizada por nós.
O Self seria o arquétipo central
ligado à imagem do Cristo. O confronto com o numinoso presente
na experiência desta situação é sentido como
ameaça pelo ego e então se opta pelos rituais. Estes sim
separariam a esfera do divino da esfera do humano, O filho de Deus e
o Ego.
CAPÍTULO III - HISTÓRICO DE SURGIMENTO E MANUTENÇÃO
DAS RELIGIÕES: CRISTIANISMO, ZOROASTRISMO E POLITEÍSMO
GREGO.
Zoroastrismo
Nascimento de Zoroastro
No livro de Breuil (1987) temos algumas
histórias e polêmicas com relação ao zoroastrismo.
Todos os dados referentes a esta religião foram retirados deste
livro. Algumas das dúvidas são relativas inclusive à
época em que viveu Zaratustra e sua religião surgiu.
Não se sabe com certeza tudo sobre
a época na qual Zoroastro viveu. Alguns dizem que Zoroastro viveu
em torno de 6.000 a.C. Outros mantêm que ele viveu na metade do
século sete a.C.
Zoroastro foi um grande profeta entre
os antigos Iranianos. Ele teve seu nascimento, segundo o zoroastrismo,
na ordem de adoração estabelecida por Ahura Mazda, o Senhor
Supremo do Universo e para realizar a Missão Divina. Seus escritos
originais próprios, o precioso Gathas, na linguagem Avesta, indica
que ele era uma pessoa embriagada por Deus.
O pai de Zoroastro foi o venerável
Porushaspo e sua mãe Dughdhvo. Zoroastro nasceu no oeste do Irã,
em Takht-e-suleman, no distrito do Azerbaijão. Ele foi descendente
direto na linhagem real, da casa de Manushcihar, o antigo rei do Irã.
O Profeta do Irã, como é
conhecido pelos seus seguidores, é Zarathustra (dono do amarelo
ou camelos velhos. "Ustra" significa, camelos).
É colocado por esta religião que quando o profeta do Irã
nasceu, a natureza regozijou-se. As árvores, os rios e as flores
expressaram a sua alegria e felicidade. Os demônios se assustaram.
Tão logo a criança nasceu, ele não teria chorado
como uma criança mortal comum, mas sim dando uma sonora risada.
Muitos anjos e arcanjos teriam vindo para adorá-lo.
O nome de família de Zoroastro
era "Spitama", o qual significa, "Branco". Zoroastro
tinha dois irmãos mais velhos e teve dois irmãos mais
novos.
O nascimento de Zoroastro teria sido
miraculoso. A glória de Ahura Mazda desceu do céu e entrou
na casa da futura mãe do profeta. Quando ela estava grávida,
dizem que arcanjos vieram até ela, adoraram e rezaram para a
criança que iria nascer.
Busca da espiritualidade
Zoroastro deixou a sua casa com a idade
de 20 anos e viajou de lugar em lugar. Ele levou uma vida de pureza
e honestidade, perambulou em florestas, viveu sozinho em cavernas e
no topo de montanhas. Ele controlava a sua língua e subjugou
a todos os seus sentidos também, era um abstêmio na Sua
dieta, dispendia o Seu tempo numa tranqüila meditação.
Zoroastro experienciou o Samadhi, ou comunhão com Ahura Mazda,
o Senhor Supremo do Universo, no topo da montanha Sabatam, onde teve
divinas visões proféticas.
O sucesso da nova religião tornou-se
a causa para duas amargas guerras entre o Irã e o Turan. Zarir,
o irmão do rei Vishtasp, e o rei em si mesmo, tornaram-se inimigos.
Zoroastro morreu com a idade de setenta anos.
Regras, ensinamentos e ritos religiosos:
Ele coincide com o protestantismo no
sentido de rejeitar a vida contemplativa, monacal e busca o sucesso
na vida econômica e glorifica o trabalho.
A caridade tem um lugar tão elevado
quanto no cristianismo "aquele que socorre o pobre faz reinar o
Senhor" (Baghan Yt.1)
Tem como datas comemorativas: Jashan - Nela se come um pão sem
fermento semelhante a grandes hóstias de nome daruns - Tem o
Ano Novo de nome Jamshedi Navroze em 21 de março e outras festas
de datas variáveis, mas que consistem na celebração
de nascimento e morte de Zoroastro, dia dos mortos, solstício
de verão e honra ao anjo da misericórdia.
As cerimônias têm flores e perfumes aos quais se atribuem
importantes papéis.
Existe uma "hierarquia do fogo" nos templos sagrados, o de
Udvada é venerado como Adar Yuzada, 0 "Filho de Deus".
É semelhante à eucaristia que encarna o próprio
corpo de Cristo na hóstia.
Os princípios desta religião são a honestidade
moral, o cavalheirismo (muito antes da Idade média), seguir a
virtude que é o caminho divino e não demoníaco
(cultivado com bons pensamentos, palavras, ações pelo
culto da honestidade, caridade e da verdade), possuem também
forte espírito cívico e tolerância para com as outras
religiões.
O conjunto dos textos sagrados chama-se Avesta e erroneamente o batizaram
posteriormente Zend - Avesta. Resta hoje ¼ do Avesta primitivo
que contava com 21 livros.
Zoroastro afirma que o propósito ético transcende a criação,
faz a transição entre pensamento naturalista e ética,
libera o divino do antropomorfismo o identificando com o bem soberano.
O embate do bem e do mal é central no zoroastrismo. O bem é
aquele que aumenta a vida e é identificado com a luz das estrelas
e do Sol, enquanto o mal, impõe obstáculos, gera desequilíbrio
entre os opostos. Ele é identificado com as trevas, não
só por ausência de luz, mas também como recusa desta.
Esta postura de afastamento leva ao congelamento espiritual.
O desenvolvimento do bem se dá pela força centrífuga
dos pensamentos, palavras e boas ações (Humata, Hukhta,
Huvarshta). Já o mal se manifesta em todo egocentrismo e na partilha
de maus pensamentos, palavras e ações (Dushmata, Duzukukta,
Duzvarshta).
Ahriman é a entidade que representa todo o mal (entorpecimento,
ignorância, imperfeição e embuste) principalmente
pela sua limitação e inconsciência e que sendo assim
opõe uma grande inércia aos seres vivos através
da doença, mentira, crueldade, sofrimento e morte. Esta energia
está fortemente presente no coração humano, se
manifestando não somente naqueles que escolhem o caminho do mal,
mas também daqueles que se recusam a enveredar pelo caminho do
bem. Zoroastro julga os homens além da estrutura social, independente
de ser rico ou pobre e deseja que os bens pertençam aos homens
de bem, pois os outros fazem deles mau uso. Aqueles que subjulgam homens
de bem devem ser combatidos.
O papel do bem nesta religião
é não só opor-se ao mal, mas também transformar
o mal em bem.
Numa humanidade onde o bem e o mal habitam cada um, tornar-se um fiel
de Zoroastro e, portanto seguir o caminho do bem, deve-se a capacidade
de uma escolha feliz que cria nele a vida espiritual (gaya) e lança
a luz de Ahura Mazda na sua alma. Arrastado para uma vida demoníaca
o homem só pode abandona-la por uma reação consciente
às forças cegas do mal. Caso contrário entra num
estado de sombras que engendra a morte espiritual (ajyaiti).
A prática do bem, sendo a caridade de extrema importância
e a sinceridade a maior de suas qualidades, encarna na terra um pouco
da luz divina de Ahura Mazda. O pior dos maus seria a mentira, pois
ela conduziria a todas as outras práticas do mundo de Ahriman.
No dia da Renovação final
o salvador cósmico, Soshan, separará os bons e os maus
e os primeiros habitarão o reino da justiça, porém
deve-se buscar na terra tentar sempre copiar este reino enquanto este
dia de divisão não chega. Trata-se de uma ressurreição
puramente espiritual. O último salvador seria da linhagem de
Zoroastro e nasceria de uma virgem que se banharia no lago onde ele
havia plantado a semente de sua doutrina. Este salvador, Saoshyant,
de nome Astvat-Arta traria o fogo celeste que atingiria os maus e dotaria
os justos de um corpo de bronze.
Depois da morte os justos (Ashavantes)
vão para o GaroDemana, casa dos cânticos extáticos
enquanto os servidores de Ahriman vão para Drujo-Demana, casa
da mentira.
"O Garodman (Paraíso) divide-se
em quatro níveis: O dos bons pensamentos, o das boas palavras,
o das boas ações e o mais elevado, o da Luz infinita"
(Breuil,1987). Há ainda algo semelhante ao purgatório,
Hamestagan, para onde vão as almas que cometeram tanto boas quanto
más ações. Sraosha é o anjo que acompanha
a alma do morto durante os 3 dias que precedem sua passagem pela "ponte
Chinvat".
O homem não está só
em seu combate existencial. Além do daena (elemento divino e
de reflexão consciente) e dos três elementos constitutivos
da alma: ahu - elemento vital, baodha - a percepção e
urvan - a alma espiritual. Existe ainda o arquétipo celeste que
chama a alma à imortalidade, a fravarti.
Após a morte urvan e baodha procuram
unir-se a fravarti que os levará à imortalidade.
Catolicismo:
Surgimento - baseado no livro - Evangelho
de Marcos - Bíblia:
Uma das mais conhecidas religiões
de todo o mundo parte do judaísmo e o antigo testamento por este
venerado, deste se distancia ao proclamar Jesus Cristo como o filho
de Deus salvador. Da vida de Jesus saíram histórias e
ensinamentos compilados nos evangelhos que descrevem sua vida pública.
Jesus teria sido filho de uma fecundação miraculosa da
Virgem Maria pelo Espírito Santo. Cresceu em família pobre,
quando o povo judeu era escravizado pelos romanos. Jesus soube desde
muito cedo que era o filho de Deus. Resistiu a tentação
do demônio no deserto, se fortaleceu, operou diversos milagres
e teve doze adeptos de sua pregação que foram chamados
apóstolos que saíram pelo mundo a pregar seus ensinamentos
que se baseavam na fé em Deus sobre todas as coisas, no amor
ao próximo e na promessa de vida eterna para o bom. Foi pego
pelo governo romano por insuflar o povo contra a ordem e foi crucificado
em público.
Seus fiéis acreditam que ele ressuscitou ao 3o dia, subiu ao
céu e ficou ao lado do pai. Retornará um dia para o juízo
final quando bons e maus serão finalmente separados, os bons
levados ao paraíso e os maus lançados ao inferno para
todo o sempre.
Análise do Livro de Jó - Bíblia:
É uma imagem da eterna disputa entre bem e mal, sendo o bem Deus
e a fé de Jó, sendo o mal Satanás e as torturas
que ele infringiu em Jó para conseguir que renegasse de Deus,
personificadas nas doenças, na perda total dos bens, nas falas
dos amigos, esposa e no escárnio do povo que antes o admirava.
O que chama a nossa atenção nesta luta é que ela
se inicia porque Satanás convence Deus a permitir este desafio
se retirando do lugar de protetor deixando por muito tempo apenas a
fé de Jó combatendo o mal.
Jó nos momentos de maior aflição amaldiçoa
o dia em que nasceu preferindo nunca ter nascido, pois então
não estaria sob essa provação. Pedindo então
à Deus, que lhe envie a morte, não tenta o suicídio,
pois isto iria contra as leis de Deus e ele permanece se sujeitando
a elas.
Nesta história o mal abate Jó em diversos aspectos: Matam-lhe
filhos e empregados, suas propriedades e plantações são
queimadas e lhe abate grave doença. "Feliz o homem a que
Deus castiga: Não desprezes as correções de Chadai.
Ele fere, mas lhe pesa as chagas, golpeia, mas suas mãos também
curam". (Pp.11 Cap V)
Esta frase demonstra como pensam as pessoas à volta de Jó.
Acreditam que Deus castiga e salva, porém esta punição
só vem para aquele que cometeu grande pecado e ninguém
acredita que Jó não o tenha feito, além disso,
caçoam da permanência da fé dele após tantas
provações.
Diante de seus interlocutores - Elifás, Sofar e Bildad, além
de Eliú, filho de Baraquel - lista todos os pecados de que se
vê acusado e pede a Deus que observe que ele nunca cometeu qualquer
destas faltas.
Resistindo às provações tem seu mal cessado e Deus
lhe devolve as graças muitas vezes ampliadas.
Mitologia Grega
Baseado no poema Teogonia de Hesíodo
- surgimento dos deuses:
Existiam duas teorias de criação
do mundo, uma partia de Caos e Éter dos quais descenderiam o
Céu, a Terra e Zeus. A outra, mais extensa, trazia a linhagem
de deuses dos quais descenderiam os olímpicos. É esta
Segunda a que usaremos aqui.
Podemos observar nela, claramente um
caminho da energia indiferenciada para diferentes formas de especificidade
de ação até, enfim, o homem.
Em Hesíodo temos que depois do
Caos veio Gaia e dela Urano. Ela é o feminino imanando o masculino.
A primeira polaridade - macho/fêmea, yang/ying, espírito/matéria,
estava criada.
Manifestaram-se ainda Tártaro, Érebo, Nix e Eros/Anteros,
estes últimos permeiam a tudo inclusive Urano e Gaia.
Destes dois unidos surgem Titãs,
Cíclopes e Hecatônquiros, filhos que proibidos de nascer
pelo pai cruel ficam presos ao seio de sua mãe. Esta decide se
vingar dando uma pesada foice ao filho, o titã Chronos, e este
castra o pai e assume seu lugar no trono casando-se com sua irmã,
a titãnida Réia (energia da terra).
Este novo casal que governa possuí
mais forma e energia mais concentrada que o anterior. Chronos segue
os passos do pai e engole os filhos logo que sua esposa os gera. Réia
salva Zeus (o caçula) e este quando mais velho retorna para tomar
o trono de seu pai. Consegue fazer com que ele vomite os irmãos
que engoliu e unido a estes mais os Cíclopes e os Hecatônquiros,
que viviam presos ao Tártaro para onde o irmão Chronos
os havia enviado, combatem os titãs e os vencem lançando-os
ao Inferno mitológico. Gaia enfurecida de ver seus filhos presos
assim, une-se ao Tártaro e gera o assustador monstro Tifão
que será vencido por Zeus que assume então o reinado dos
deuses governando do monte Olimpo.
Os deuses que irão compor o cenário
principal da mitologia grega serão os filhos de Réia e
Chronos: Zeus - o deus supremo, Posêidon - senhor das águas,
Deméter - deusa da agricultura e a mãe carinhosa, Hera
- deusa das esposas e a mãe rígida, Hades - deus dos infernos,
Héstia - deusa da família e do fogo doméstico.
Os filhos de Zeus, Apollo - Deus das artes, do sol e da beleza, Ártemis
- Irmã de Apollo, deusa da caça, da lua, da vida selvagem
e das virgens, Hermes - Mensageiro dos deuses entre si e com o mundo
terreno, Dionísio - Tem subida posterior ao Olimpo e é
o deus do vinho, do êxtase e do entusiasmo, Core/Perséfone
- Deusa do subterrâneo, filha de Zeus e Deméter e esposa
de Hades, e Hefesto - Deus do fogo, dos metais e dos vulcões.
Em algumas histórias aparece apenas como filho de Hera, Athena
- Deusa da justiça, Ares - Deus da guerra. E a deusa gerada pelas
espumas do mar quando fecundadas pelo sêmen do membro cortado
de Urano: Afrodite - Deusa do amor e da beleza.
Ao deus Hades coube o mundo do subterrâneo
que levou também o seu nome. Para lá iam as almas de todos
os mortos que posteriormente seriam divididas indo para um dos 3 espaços
deste mundo: Campos Elíseos, Érebo e Tártaro.
Após a morte a alma (psique) do
morto era conduzida por Hermes até a barca do Caronte onde se
atravessava os 4 rios infernais (caso você pague a moeda de prata
que será exigida pelo barqueiro), passa-se por Cérbero,
o cão de 3 cabeças e chega-se ao local onde a alma será
julgada por Radamanto, Minos e Eaco. Após este julgamento ou
ela vai para o Tártaro - morada permanente dos grandes criminosos,
ou ao Érebo - local intermediário do qual ela iria para
algum dos outros dois, ou aos Campos Elíseos - local agradável
e quase paradisíaco onde se aguarda a reencarnação
que se dará na forma animal ou vegetal.
Postura Religiosa:
O povo grego vivia então em constante batalha e cada uma das
que hoje são cidades, eram então países naquele
território.
As pessoas veneravam diferentes deuses
buscando conselhos ou graças e não havia uma hierarquia,
estando o deus mais ligado à cidade de onde você procedia
(se ele era o padroeiro lá ou não) e qual o tipo de favor
que você queria (ligado à sexualidade, vitória em
guerras etc.). Era costume fazer oferendas e visitar templos, além
de se fazer consultas com as sacerdotisas destes lugares.
Esta religião foi incorporada e adaptada pelos romanos quando
estes tomaram a Grécia em seu império e hoje não
é mais uma religião praticada, porém é muito
conhecida e tida como mais um dos grandes traços de influência
e convergência do povo grego com toda a civilização
ocidental.
Metodologia:
A pesquisa foi desenvolvida primeiramente
com a leitura dos materiais, realizando-se a síntese dos textos
em fichamentos.
Em seguida houve uma análise desses
fichamentos para separação dos textos realmente relevantes,
considerando o objetivo da pesquisa.
A última etapa consistiu em comparação e discussão
das obras lidas para o andamento da pesquisa e para preparação
do relatório.
Toda a bibliografia prevista para a pesquisa,
assim como demais fontes de informação, estão disponíveis
tanto em bibliotecas como em livrarias, tendo sido, portanto acessíveis
aos envolvidos no projeto.
A análise dos dados foi trabalhada
sempre se remetendo ao já pesquisado por Jung e buscando-se sempre
uma mesma compreensão de todos os envolvidos na pesquisa.
CAPÍTULO V - ANÁLISE DE DADOS:
Estudamos as religiões de acordo
com seu surgimento e suas postulações em linhas gerais.
Selecionamos, porém o surgimento de seus deuses e/ou grandes
profetas e algumas passagens de suas vidas, sua visão do surgimento
da terra e da humanidade, da vida após a morte e do fim dos tempos
para ilustrar como se aproximam e distanciam as representações
míticas dos principais arquétipos.
Dividimos abaixo, em tópicos por arquétipo, para melhor
visualizarmos estas semelhanças e diferenças.
Anima: Enquanto elemento feminino presente no homem ele aparece expresso
na fantasia individual e nos mitos religiosos na forma de uma mulher,
então certamente toda figura feminina trás algo da anima
em si, porém nos centrando apenas nas figuras e momentos estudados
podemos observar a partir da mitologia grega (religião muito
estudada por Jung), algumas imagens que são mais expressivas
da análise que Jung faz da anima e seus estágios como:
o 1o sendo Gaia e sua energia ainda muito disforme, o 2o Afrodite e
sua beleza e sexualidade afloradas, o 3o como Héstia que é
apenas energia do fogo da lareira que aquece a união familiar
e a sua fé, não tendo sequer forma humana, o 4o estágio
seria Athenas que é a própria sabedoria.
Héstia, deusa olímpica pouco citada na mitologia grega,
encontra-se em um estágio de adoração semelhante
ao da virgem na janela cantada pelos trovadores na idade média.
Não possuindo sequer forma humana, cabendo à ela, portanto,
apenas o amor de adoração espiritual, sem dimensão
carnal.
Core/Perséfone é o mito que expressa o movimento da anima.
Aquela que expressa características no mundo aberto, mas possui
também uma vida desconhecida num mundo misterioso (hades / inconsciente).
Ela se desloca nestes dois mundos e entre características opostas
e complementares como ser filha/ esposa, jovem pura/ rainha do submundo
entre outras, sempre caminhando entre a consciência e o inconsciente.
A anima é o reflexo humano de uma energia anterior a ela, o que
torna muitas vezes difícil encontrar a imagem perfeita que a
defina, assim como qualquer arquétipo.
As figuras femininas do cristianismo trariam os estágios da anima
também, porém tendo suas narrativas mais lineares que
as gregas, torna-se possível encontrar numa mesma figura uma
transformação de estágio da anima... A Virgem Maria,
aquela que concebe sem pecado, mostra o 3o estágio da anima enquanto
a figura primitiva de Eva expressa ainda o primeiro. Maria Madalena
mostra o trânsito entre mundos diferentes que a anima tem, e encarna
a possibilidade de transformação da anima. Aquela que
é lasciva e sensual encarnando o 3o estágio, e é
delegada a estar na sombra para a sociedade em que vive, torna-se devota
e religiosa se colocando sob a luz numa postura de amor espiritualizado.
A Maria Madalena é ao mesmo tempo transformação
na relação com a anima, e símbolo da característica
da sombra que pode ser trazida para a persona de forma positiva.
No Zoroastrismo as figuras femininas são raras, mas se mantém
a imagem da virgem que fecundada sem pecado trás em si a semente
da fé elevando o amor à espiritualidade como o 3o estágio
descrito por Jung.
A anima idealizada aparece como a virgem
fecundada em diversas religiões. A própria mitologia grega
traz à luz a imagem da virgem por diversas vezes.
A própria devoção religiosa e a possibilidade de
compreender e aceitar o irracional são características
da anima e certamente aparecem em todas as expressões religiosas
e em seus mitos.
Animus: Enquanto elemento masculino na mulher é aquele que se
opõe e complementa a anima. Na mitologia grega Jung identificou
Hermes como imagem arquetípica do animus. Assim como Perséfone
ele se desloca entre mundos conduzindo almas e levando mensagens, ficando
assim ainda mais clara a sua função de mediador. É
ele quem conduz as almas ao Hades e leva recados do Olimpo à
terra mudando de postura (comunicador, ladrão e garoto brincalhão)
e inclusive de nome em alguns momentos. Porém não é
o único que detém as características do animus.
Vemos na figura de Apolo e de Zeus a expressão da racionalidade
e da lógica, e se pensarmos no equilíbrio da energia arquetípica
no encontro do par de opostos, ela está expressa nos casais divinos
mesmo quando trocados os pares de deuses.
O Zoroastrismo é repleto de figuras masculinas, mas o que podemos
entender como expressão do animus de forma mais clara é
a valorização da capacidade de discernimento lógico
entre bom e mal daquele fiel que terá de escolher um caminho.
O bem é também capacidade de escolha, manutenção
no caminho da verdade e clareza da diferença dos dois lados.
A ignorância residiria no mal e o conhecimento aconteceria de
forma racional e consciente. Seria então imagem do animus a própria
figura de Zoroastro, aquele que caminhou continuamente rumo ao conhecimento
e a verdade.
Na história de Jó do antigo testamento, apenas um personagem
feminino aparece e todas as figuras masculinas que se põem a
dialogar com Jó trazem em suas postulações uma
conclusão apoiada na racionalidade e na ponderação
dos fatos. Colocam-se expressando este aspecto do animus, mas que neste
mito perde força visto que a superação deste conflito
se dá pela fé inabalável de Jó. Aqui o animus
traz características negativas da sombra, mas no processo de
transformação que sofre no encontro com a fé, o
desfecho é positivo, trazendo a tona características positivas
de Jó.
Persona: A persona é fachada, através da qual agimos no
mundo, com referência no que é adaptativo do ponto de vista
da sociedade. Com sua imagem podemos identificar o deus da mitologia
grega Dionísio, aquele que cria o vinho e assim assume uma nova
forma de ser (uma outra máscara).
Ela tem sempre a forma que é possível diante da sociedade
segundo o indivíduo. Uma boa imagem para esta característica
é Zeus que assumia diferentes formas para conseguir realizar
suas paixões terrenas. Metamorfoseava-se em animais e seres humanos
para obter o que queria.
Tanto no zoroastrismo quanto no catolicismo uma imagem "tolerável"
aos humanos para o recebimento de mensagens divinas é a imagem
do anjo que traz a boa nova. A cada estágio de ascensão
de Zoroastro no caminho da verdade surge um anjo. Na Bíblia católica
esta imagem também é muito comum, porém um bom
paralelo para a persona, enquanto capacidade de expressão de
um humano para a humanidade, são os apóstolos. Eles aprendem
com Jesus a palavra divina e a levam para o mundo, cada um com sua especificidade,
nenhum deles pode ser igual a Cristo, nenhum deles pode ser o Self,
porém podem ser santos cada um dentro de sua possibilidade. São
limitados e ao mesmo tempo são os responsáveis pela expressão
do catolicismo à humanidade.
Sombra: A imagem da sombra, aquela que está submersa, distanciada
da luz e cujos conteúdos só podem de lá ser retirados
quando passíveis de serem incorporados ao cotidiano do indivíduo
sem prejuízo para este, é a imagem de Tifão guardando
Zeus / animus preso ao Tártaro. Este é um monstro horrível
e assustador, gerado do ódio e cuja função é
destruir, ele precisa ser combatido para que os heróis(animus)
vençam, assim como em diversas histórias gregas.
Aqui vemos o postulado por Jung de que
aquele que não toma consciência de sua sombra por ela é
dominado ou sente permanentemente sua ameaça de dominação.
Esta ameaça deve ser destruída.
No Zoroastrismo a sombra seria Ahriman aquele que tenta o fiel com o
mundo da mentira e da maldade. O que é postulado porém,
é que este mundo deve ser negado em favor de outro que seria
o da luz de Ahura Mazda. Ahriman se impõem pela ignorância,
mas conforme se escolhe o caminho da verdade vai ficando cada vez mais
claro quais aspectos devemos colocar em nossas vidas e quais devem ser
abandonados. Tudo aquilo que é negativo e do qual devemos nos
afastar é atribuído ao secto de Ahriman.
Satanás em Jó se aproxima de Ahriman, porém ao
invés de ofertar um caminho equivocado ele seduz a Deus. Ele
é autor de diversas perversidades e crimes contra Jó,
mas este segue fiel ao seu caminho de fé. A tentação
da sombra aqui era a de abandono da religiosidade, mas isto não
acontece. Podemos ler as falas dos amigos de Jó como expressões
da sombra dele, porém este conflito tem como desfecho o fortalecimento
da fé e a superação do estado de disputa da sombra
e da luz. O Satanás vai retornar em outros momentos da Bíblia
como sombra, voz da dúvida dos fiéis em momento de provações
e possibilidade de questionamento antes da transformação
e do fortalecimento do ser e de sua religiosidade.
Numa das passagens da Bíblia, Jesus expulsa comerciantes de um
templo judeu. Cristo ao expulsar os comerciantes do templo mostra uma
possibilidade de lidar com a sombra, diante de um aspecto negativo desta,
ele (o aspecto) é retirado daquele lugar que não é
o seu e mandado para um lugar onde não possa fazer mal. Fora
do templo.
Self: O todo, a multiplicidade de caminhos e escolhas, o possibilitador
das transformações, aquele que engloba todos os outros
arquétipos, tudo isso é o Self. Sua expressão geralmente
se dá numa figura altamente reverenciada na religião e/ou
um mito de grande poder. Certamente cada mito será a expressão
de algo do Self, mas buscamos aqui um que possa expressá-lo o
mais próximo possível de sua magnitude.
Ele é uma roda que gira com um ponto imóvel central. Aquele
que se mantém imutável e estático apesar de estar
em constante rotação.
Na mitologia grega poderíamos resgatar o Caos, pois é
dele que emanam todas as energias melhor organizadas, caminhando até
os deuses olímpicos e a humanidade. Ele é o início
de uma ampla cadeia de possibilidades, porém ainda muito disforme,
portanto para falar de Self não podemos esquecer da energia e
potencialidades de cada um de seus descendentes neste caso.
O Zoroastrismo tem na polarização de seus deuses o Self.
Ahura Mazda de onde toda a bondade emana e cuja luz ilumina aquele que
segue o caminho da verdade e da caridade, e Ahriman aquele que rege
o embuste, a farsa e a crueldade. Numa religião de transição
do politeísmo ao monoteísmo apenas na dupla preponderante
de opostos é que podemos encontrar a totalidade.
A expressão do Self na religião católica já
foi tida por Jung e por nós referendada como sendo a figura de
Jesus Cristo. Aquele que é divino, mas também humano,
reunindo as qualidades e também as incertezas de ambos os estados.
Jesus é aquele que aquece e ilumina a humanidade, por isso tem
seu corpo simbolizado na hóstia que alimenta o corpo e a alma,
além de ter a forma do sol que é aquele que nutre e aquece
a humanidade como o filho de Deus.
Resumindo, portanto, O si mesmo, Self,
teria Cristo como imagem arquetípica. Este tendo como representação
o ouro, o Sol, o novo Sol (fogo celeste) que ilumina a vida espiritual.
O fogo é o símbolo da vida desde Heráclito. Estas
representações ficam claras na missa pelo cálice
de ouro que contém o vinho tornado sangue de Cristo e a hóstia
redonda. A relação dos três elementos: Cristo, Sol
e Self é a daqueles que dão a vida e uma consciência
que é fundamental.
Deus estaria acima destas categorizações
sendo detentor e expressão de cada característica possível,
seria uma energia para além do Self e difícil de ser discutida
nestes termos em qualquer religião monoteísta.
Bem e mal: O Bem e o Mal em conflito formam pilares de sustentação
de diversas religiões. Na mitologia grega apesar de todos os
deuses terem aspectos positivos e aspectos negativos de acordo com a
cultura daquele povo, com o passar do tempo, certos deuses que tinham
como características preponderantes aquelas bem vistas na sociedade
foram ganhando mais espaço junto aos fiéis do que outros.
Além disso em algumas histórias formam-se polaridades
de grupos que são vistos como bons e os grupos dos maus. Uma
destas é a história do duelo entre olímpicos e
titãs quando fica claro que os deuses do olimpo representam o
bem. O bem está aqui ligado à superação
de obstáculos, vingança de injustiças passadas
e a chegada do novo. É como se o bem fosse sempre aquele que
está por vir.
No Zoroastrismo o duelo bem e mau é encarnado nas figuras arquetípicas
de Ahura Mazda e Ahriman como já explicado anteriormente. Eles
disputam o coração e a lógica da humanidade se
valendo da sinceridade e da bondade ou da mentira e da crueldade, respectivamente.
O bem é aquele que liberta da ignorância, que traz conhecimento,
que se abre pela possibilidade de escolha.
No catolicismo apesar da existência da figura do demônio
é a providência divina que rege a tudo, inclusive Bem e
Mal. Deus castiga, cura, salva e fulmina. O merecimento do bem ou do
mal depende da humanidade andar ou não sob os desígnios
de Deus. É ele quem permite que Jô sofra e é ele
quem escolhe a hora de parar e lhe devolver sua felicidade multiplicada.
Considerações Finais:
Concluí-se que a hipótese inicial estava certa, assim
como Jung em suas diversas pesquisas pode-se aqui encontrar diversas
expressões semelhantes dos mesmos arquétipos nas diversas
religiões estudadas.
Imaginamos que o padrão se repita nas religiões que aqui
por diversos motivos não constam, porém valeria uma pesquisa.
Outro dado que seria relevante seria estudar onde se distanciariam na
expressão dos arquétipos, religiões que partilham
livros e marcos religiosos em sua história, mas se constituíram
de forma diversa como o catolicismo, islamismo e protestantismo.
Espera-se, concluindo, que esta tenha sido mais uma pesquisa a fim de
contribuir na compreensão da teoria junguiana e na demonstração
da importância da busca do sagrado para a humanidade.
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Fonte: http://www.pucsp.br/clinica/boletim19_05.htm