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BOLETIM CLÍNICO - número 19 - novembro/2004


5. Do Politeísmo da Mitologia Grega ao Monoteísmo das Religiões Judaico-Cristãs Fundamentadas pelo Conceito de Arquétipo Junguiano

Linha de pesquisa: Uma pesquisa bibliográfica de referencial junguiano.

ÍNDICE:

- TÍTULO
- INTRODUÇÃO
- PROBLEMA DE PESQUISA
- JUSTIFICATIVA
- CAPÍTULO I - IMPORTÂNCIA DA RELIGIÃO PARA O HOMEM.
- CAPÍTULO II - CONCEITOS DA PSICOLOGIA ANALÍTICA: ARQUÉTIPOS (ANIMA, ANIMUS, SOMBRA, PERSONA E SELF) E ARQUÉTIPOS DO BEM E DO MAL
- CAPÍTULO III - HISTÓRICO DE SURGIMENTO E MANUTENÇÃO DAS RELIGIÕES: CRISTIANISMO, ZOROASTRISMO E POLITEÍSMO GREGO.
- CAPÍTULO IV - METODOLOGIA
- CAPÍTULO V - ANÁLISE DE DADOS / CONCLUSÕES
- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


INTRODUÇÃO:

As religiões andam em voga nos noticiários de todo o mundo, principalmente desde o atentado das torres gêmeas em 11 de setembro. A estruturação das religiões tem sido usada como motivo para guerras ou máscara para outros interesses, quase sempre econômicos, contidos nestes conflitos. Discutem-se povos melhores e piores levando em conta a religião destes. Quem participa deste tipo de ranqueamento não se da conta da raiz comum que as une em todo o mundo - A tendência humana em buscar algo além em que acreditar. É desta propensão inerente ao homem, segundo Jung, que surgem as religiões em suas mais diversas formas.

Jung lia religião como religio ou religare, que seria - ligar novamente - ou seja, a religião como responsável por unir consciente e fatores inconscientes imprescindíveis. Araújo, (2001) nos conta que Jung se apropria do termo de R. Otto- numinoso- para definir a relação com os conteúdos da religião e a emoção dos que os vivenciam. "Via, então, a religião como uma observação conscienciosa e acurada do numinoso, ou seja, um efeito dinâmico ou existência que domina o ser humano; é independente da sua vontade".(Araújo, 2001).

Segundo Silveira (1994) todas as religiões têm origem no inconsciente se manifestando através de diferentes formas e adquirindo milhares de representações. "... venham eles por sonhos, visões ou êxtases e apresentem-se como deuses, demônios ou espíritos". (Araújo, 2001). Ainda Silveira, afirma que não existe um Deus ou uma forma de transcendência, mas tão somente arquétipos "do mesmo solo materno em que outrora se formaram, sem exceção, todos os sistemas filosófico-religiosos". (Jung, 1988, p.77).

Até aqui desenvolvemos a relação das religiões com o humano e entre si, mas ainda que se aprofunde estas questões o lugar da prática psicológica além da teoria junguiana não fica claro até que se trate a religiosidade como aspecto inerente ao ser. Seguindo esta lógica de Jung, a religiosidade é uma função psíquica que poderia ser (assim como qualquer outra) desenvolvida ou reprimida. Já que toda função psíquica busca meios de se expressar isto poderia ser feito das mais diversas formas, construindo assim credos e religiões distintas, porém o "problema Deus" está em todo homem e o impele a uma postura religiosa que precisa irromper e se expressar no consciente.

Seguindo estas considerações Araújo defende que é papel do psicólogo auxiliar o cliente na busca religiosa (do re-ligar) genuína. Uma atitude sincera com o numinoso que é ainda o Si - mesmo. Talvez nesta busca o encontro do outro como igual seja uma resposta possível e mais proveitosa que o acirramento das guerras "santas".

Para Jung (1995) a única coisa que se pode dizer de Deus em psicologia é que há uma imagem arquetípica de divindade. Ele se vale dos termos Deus e divindade de forma simbólica, pois: "Ambos se encontram como tais, muito além do alcance humano. Revelam-se a nós como imagens psíquicas, isto é, como símbolos". (Jung, 2000, p. 296).

O símbolo é uma forma de expressar algo que não se pode falar claramente. E sempre carregados de afetividade que é o que os retira da condição de meros signos para a esfera da simbolização. Neste momento discutiremos os símbolos religiosos.

O termo símbolo vem do grego sýmbolon que é algo como "arremessar ao mesmo tempo". De forma clara é um conceito de equivalência, afinal o símbolo representa sempre mais do que seu significado evidente e imediato e assim precisa ser para atender ao propósito de comunicar o incomunicável. Na religião o símbolo é colocado para se transmitir histórias míticas, mitos, que compõem aquela seita.

O mito é sempre uma representação coletiva, transmitida aos descendentes para explicar o mundo. Ele é ainda sentido e vivido. Palavra que circunscreve um acontecimento, narra uma criação, diz do que não existia e como passou a existir. Segundo Goethe em citação de Campbell (1997), os mitos são as relações permanentes da vida. Fala sempre das relações humanas e não é nem poderia ser lógico, pois se presta a todas as interpretações.

Para ilustrar temos as palavras de Moyers no livro de J. Campbell (1997, pp.5): "Mitos são histórias de nossa busca de verdade, de sentido, de significação, através dos tempos... Precisamos que a vida tenha significação, precisamos tocar o eterno, compreender o misterioso, descobrir o que somos".

Mais diretamente para C. G. Jung, mito é a conscientização de arquétipos do inconsciente coletivo, uma união de consciente e inconsciente coletivo, assim como as formas através das quais o inconsciente se manifesta. O mito é aquele que remete, o rito é sua ação.

Após a definição de mito resta ter claro o que é mitologia. Na sua origem, mitologia é "movimento", movimentação de elementos arcaicos (arquétipos) tradicionalmente transmitidos, sujeitos, portanto a transformações. Mesmo sendo transformados serão ainda expressões de um arquétipo

Para Mircea Elíade: "Um objeto ou um ato não se tornam reais, a não ser na medida em que repetem um arquétipo. Assim a realidade se adquire exclusivamente pela repetição ou participação; tudo que não possui um modelo exemplar é vazio de sentido, isto é, carece de realidade".

É da simbolização dos mitos e sua relação direta com a expressão dos arquétipos do inconsciente coletivo que pretendemos tratar neste trabalho. Percebemos, como coloca que ainda que se trate de um símbolo religioso bem definido, sempre corresponderá aos do Self, uma expressão da idéia e da presença de algo de Deus que manifesta a totalidade psíquica através de experiências psicológicas.

Com o objetivo de comprovar o postulado por Jung e aqui explicitado sobre a mitologia religiosa e os arquétipos resolvemos desenvolver este trabalho que utiliza estes conceitos para relacionar religiões, duas que estão sendo contrapostas pela mídia - islamismo e catolicismo - o zoroastrismo (primeira religião a dividir bem e mal e se encaminhar para o monoteísmo) e o politeísmo da Grécia antiga, berço de toda a cultura ocidental.

O campo de ação com o avanço da pesquisa acabou não incluindo mais o islamismo que fica como possibilidade de exploração para próximos projetos, porém mantivemos o trabalho com todas as outras religiões. Concluímos aqui que existe sim ressonância desta energia arquetípica em diferentes mitos das religiões estudadas sendo possível identificar os arquétipos, assim como descritos por Jung, em cada uma das religiões.


OBJETIVOS / PROBLEMA DE PESQUISA

Nosso objetivo aqui foi comparar os conteúdos históricos e simbólicos das religiões a partir do conceito de arquétipo dado por Jung. Desta comparação pretendeu-se extrair respostas sobre em que aspectos e de quais arquétipos estas religiões se aproximam e se afastam.

Buscou-se saber de que forma esses arquétipos, especificamente: anima, animus, persona, sombra e Self, além da dualidade Bem e Mal, influenciaram na concepção mítica e religiosa do homem desde a antiguidade. O trabalho presente com a relação religiões/ teoria junguiana pretendeu gerar debates e conclusões.

O trabalho consiste na leitura de alguns livros da Bíblia cristã, histórias da mitologia grega retiradas da Teogonia de Hesíodo e partes do livro sagrado do zoroastrismo. Assim percorre-se o caminho do politeísmo ao monoteísmo e como este se difundiu pelo mundo para então comprovar a existência dos mesmos conteúdos arquetípicos apesar de expressos em símbolos próprios a estas religiões.

JUSTIFICATIVA

"... as divindades gregas antecederam e permearam quase todos os símbolos religiosos da cultura judaico-cristã, assim como a arte e a literatura de todo o Ocidente, permanecendo como imagens precisas e fundamentais que operam na psique humana. (...) A Psicologia utiliza a palavra 'arquétipo' para descrever essas imagens, que são universais e existem em todas as pessoas de todas as civilizações e culturas, em todos os períodos da História".
(Juliet Sharman-Burke e Liz Greene).

O presente trabalho tem o objetivo de integrar o conceito junguiano de arquétipo com a Teogonia de Hesíodo, com a Bíblia e com o Zend avesta do zoroastrismo, buscando analisar dentro de uma abordagem psicológica a busca do divino no homem.

O início da investigação deu-se a partir da discussão dos conceitos que o Prof. Dr. Efraim desenvolveu em seu livro "A Nova e a Velha Mitologia". Neste, o autor discute do ponto de vista psicológico os arquétipos, os deuses gregos e a linha teórica escolhida por cada terapeuta.

A importância de se estudar o arquétipo se respalda na necessidade de entender como essa energia coletiva e inconsciente, que se manifesta no comportamento humano principalmente em sua vocação, pode tornar-se energia de realização.

O estudo das influências dos arquétipos é validado pelos diferentes tipos de comportamentos religiosos notados atualmente que tiveram sua construção devido à perpetuação da cultura da Antigüidade.

Esse estudo pretende levar o indivíduo a tomar conhecimento dos arquétipos, assim, se tornando consciente do processo de ressonância das energias arquetípicas que o perpassa.

O presente trabalho consiste em uma pesquisa bibliográfica que analisa comparativamente os relatos presentes na base do cristianismo, do zoroastrismo e da mitologia grega com relação a expressão dos arquétipos principais descritos por Jung - persona, sombra, anima, animus e self. Buscou-se aqui encontrar aspectos comuns às religiões e os pontos onde elas se distanciavam. Para demonstrar este movimento de expressão semelhante independente da raiz da religião buscou-se uma monoteísta, uma politeísta e uma dual, de transição. Fez-se presente também a necessidade de demonstrar as semelhanças e diferenças quando se falava da polaridade arquetípica bem e mal que é um dos pilares de toda religião. Jung conta da busca do sagrado no homem como inerente a sua existência e da possibilidade de experienciar o numinoso. Ele lê todos os relatos religiosos como expressão das mesmas energias anteriores às próprias religiões, os arquétipos, e aqui se pôde comprovar isto. Em todas as religiões estudadas através de seus livros sagrados ou livros explicativos do funcionamento delas, encontramos a virgem que eleva o amor a dimensão espiritual, a ameaça que deve ser destruída, a máscara através da qual se torna possível comunicar algo e a figura repleta de adjetivos que torna viável qualquer possibilidade do ser além de diversas outras imagens que expressam os mesmos arquétipos, porém muitas vezes enfatizando diferentes características. Imagina-se ser esta não uma pesquisa de fechamento, mas mais uma contribuição no caminho do reconhecimento da importância da busca do sagrado no homem e da compreensão da teoria junguiano.

Palavras - chave: Religião; Arquétipo



CAPÍTULO I - IMPORTÂNCIA DA RELIGIÃO PARA O HOMEM

"Antes de falar em religião, devo explicar o que entendo por este termo. Religião é - como diz o vocábulo latino religere - uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolf Otto acertadamente chamou de numinoso, isto é, uma existência ou um efeito dinâmico não causados por um ato arbitrário. Pelo contrário, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vítima do que seu criador. Qualquer que seja a sua causa o numinoso constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade (...), a doutrina religiosa mostra-nos invariavelmente e em toda parte que esta condição deve estar ligada a uma causa externa ao indivíduo. O numinoso pode ser a propriedade de um objeto visível, ou o influxo de uma presença invisível, que produzem uma modificação especial na consciência. Tal é, pelo menos, a regra universal"(Jung, 1988).

O efeito do numinoso é o que se chamou para Buda de iluminação. É uma mudança do nível de consciência que eleva a um estado de exaltação psíquica que leva além da transcendência.

Seriam então os milagres, as visões e todos os eventos relacionados a estes momentos de numinoso, experiências numinosas, pois modificam os crentes que passam por eles e ocorrem independentemente do esforço do contemplado.

A experiência do numinoso e a busca por algo maior (um deus, energia ou força) caracterizam todos os povos ao longo do desenvolvimento da humanidade. A religião é uma função psicológica extremamente importante para o indivíduo e a sua recusa resulta em problemas psicológicos tanto quanto o mau relacionamento com outras funções. Diversas vezes Jung encontrou nos sonhos de seus pacientes, a simbologia religiosa para indicar problemas de outra ordem e diversas outras vezes encontrou problemas que apenas com o reencontro com aspectos da religião puderam se solucionar.

Na mitologia grega, a mais antiga das religiões aqui estudadas, já podemos observar o relacionamento com o numinoso, nos mitos sobre curas fantásticas e dons cedidos pelos deuses, além da eterna busca de contato com estes por parte do povo. Visitando os templos, fazendo oferendas, erguendo altares e consultando os sacerdotes, estes sim que - em transe - teriam um contato direto com os deuses e possivelmente uma experiência numinosa.

O termo religião pode ser dividido em duas visões diferentes. A primeira é uma confissão que se coloca numa profissão de fé determinada; a segunda uma experiência onde o homem entra em contato com o sagrado que lhe gera o sentimento do numinoso. Acreditamos que a religião em si seria realmente mais ligada a segunda definição. A confissão seria a função social do dogma e do rito, constituindo assim uma parte da religião, porém não seu sinônimo.

As religiões surgem dos mesmos conteúdos inconscientes, se manifestando das mais diversas formas. Sendo assim Silveira (1994) deduz então que não existe Deus ou uma forma pré-determinada, mas somente estes conteúdos energéticos. Existem apenas arquétipos que mesmo sendo os mesmos dão origem aos mais diversos deuses de todas as religiões.

Este conteúdo simbólico que permeia todas as religiões é assim resumido por Jung: "Sob a forma abstrata, os símbolos são idéias religiosas, sob a forma de ação são ritos ou cerimônias". (Jung, 1997, p.45).

A devoção religiosa, a necessidade de reverenciar se observa também na importância dada aos fatos na ciência e no crente temperamento científico. Assim também é o culto de personalidades, cantores e atores como se observa nos dias de hoje. "Quando se torna modelo para a vida dos outros a pessoa se move para uma esfera tal que se torna passível de ser mitologizada" (Campbell, 1997 pp. 16).

CAPÍTULO II - CONCEITOS DA PSICOLOGIA ANALÍTICA: ARQUÉTIPOS (ANIMA, ANIMUS, SOMBRA, PERSONA E SELF) E ARQUÉTIPOS DO BEM E DO MAL

Com o estabelecimento da religião católica veio também a cristianização de deuses e festas hereges como o carnaval onde é colocada a 4a feira de cinzas como momento de purgar os pecados da festa, o nascimento de Cristo no solstício de inverno, a Páscoa cristã na mesma época da hebréia (muda de data porque é referente à lua cheia em Áries). Esta incorporação cultural leva o nome de Sizígia. Esta sobreposição das datas, também é vista por um panorama relativo ao inconsciente coletivo, que seria a manifestação do mesmo arquétipo nas diferentes religiões. O religioso que incluí a festa pagã no calendário cristão recebe a influência do arquétipo também. Resumindo, a incorporação da festa pagã no calendário cristão, ou apropriações religiosas semelhantes, envolve dois aspectos: a apropriação de ritos religiosos anteriores, e a ressonância com o arquétipo que se manifestava na festa pagã.

Mas sendo o mesmo arquétipo, por que as imagens não são exatamente as mesmas? Segundo a teoria junguiana mesmo sendo a mesma energia ela se expressa de forma diferente para as diferentes culturas e pessoas. Sendo estas, por sua vez, já diferentes em outros aspectos, acabam expressando de forma diferente os arquétipos.

"As imagens cristãs semelhantes às pagãs já existiam quando a humanidade ainda não tinha aprendido a planejar tarefas e sempre podem reaparecer, são as imagens arquetípicas". (Jung, 1988).

"Sua particularidade mais inerente é o caráter mítico. É como se pertencesse à humanidade em geral, e não a uma determinada psique individual" (Jung, 1972).

O arquétipo é o material coletivo que constitui a mitologia. Especificando melhor, inconsciente coletivo é a herança das vivências das gerações anteriores, enquanto os arquétipos, do grego arkhétypos (primitivo, idéias inatas) seriam um padrão desses conteúdos hereditários do inconsciente coletivo que organizam o desenvolvimento psicológico com os símbolos. Derivam de matrizes arquetípicas podendo assumir formas diferentes gerando imagens arquetípicas. Suas manifestações não teriam a ver com consciência, mas sim condicionamentos instintivos. São arquétipos, por exemplo, a anima, animus, self, persona e sombra. (Jung, 1988)

A relação destes arquétipos e o inconsciente coletivo é explicitada pelo mesmo Jung quando este se refere as camadas mais profundas da psique inconsciente: "Desse nível derivam conteúdos de caráter mitológico ou impessoal, em outras palavras, os arquétipos e denominei-os inconsciente coletivo ou impessoal" (Jung, 1972).

Não temos acesso direto a energia inconsciente coletiva assim como à individual. Nós conseguimos apenas perceber manifestações desta energia e postular a existência do inconsciente coletivo.

Percebemos estas manifestações nas ações e narrativas mitológicas, o endeusamento dos guerreiros vitoriosos, assim como expressões artísticas e religiões.

Em "Fundamentos da psicologia analítica", Jung prossegue definindo arquétipo: "Arquétipo significa um (impressão, marca impressão), um agrupamento definido de caracteres arcaicos, que, em forma e significado, encerra motivos mitológicos, os quais surgem em forma pura nos contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore" (Jung, 1972).

"Mas uma das regras da Psicologia diz-nos que o arquétipo que perdeu sua hipóstase metafísica (realidade de uma entidade metafísica) se identifica com a consciência individual, a influência e a transforma segundo as suas tendências. E como o arquétipo possui sempre uma certa numinosidade sua integração produz, em geral, uma inflação do sujeito (...)" (Jung, 1988). Neste mesmo trecho do livro Jung prossegue falando de um caso específico que pode ser usado como ilustração da interferência do conteúdo individual no coletivo. "Como os indivíduos não estão separados uns dos outros por compartimentos estanques, esta inflação infecciosa se alastrou de maneira geral, produzindo uma insegurança moral e ideológica verdadeiramente notável" (Jung, 1988). Assim ele alerta para o perigo de uma sociedade imbuída dos mesmos aspectos de um arquétipo, como foi a Alemanha nazista. Quando algo pode se iniciar do arquétipo para o indivíduo, mas uma vez vivenciado socialmente perde o caráter individual e as pessoas isoladamente perdem a capacidade de se diferenciar.

A justificativa para que existam estes conteúdos arcaicos no homem atual é feita, por Jung, através de uma analogia com a evolução física humana que resultou num homem que ainda traz traços dos peixes, primata etc. Esse paralelo é resumido assim: "Nossa mente inconsciente, bem como nosso corpo, é um depositório de relíquias e memórias do passado" (Jung, 1972).

Jung chega a definir alguns arquétipos, porém fala de cinco deles como extremamente importantes para a constituição do ser humano e que podem ser expressos pelas mais diversas imagens. Estes seriam: anima, animus, persona, sombra e self. No nosso trabalho incluiremos também a dualidade arquetípica do bem e do mal.


Anima e Animus:

A anima é o elemento feminino no homem, mediador de nível consciente e inconsciente enquanto o animus cumpre semelhante papel, sendo elemento masculino na mulher. Eles auxiliam que conteúdos inconscientes possam ser realizados conscientemente. São geralmente as partes da sombra que se projetam no outro, do sexo oposto devido a esta mediação consciente/ inconsciente realizada pela anima e pelo animus.

"Anima é a personificação de todas as tendências psicológicas femininas na psique do homem - os humores e sentimentos instáveis, as intuições proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas nem por isso menos importante, o relacionamento com o inconsciente" (von Franz, 1964).

Ela é ainda responsável pela graça, dança e busca do belo.

A anima pode ter papel não só de mediadora, mas também de guia entre o mundo interior e o self. Sua expressão pode trazer a tona aspectos negativos ou positivos e a forma como o indivíduo se relaciona com a sua anima fará toda a diferença no lidar com os aspectos apresentados. É ela que ajuda o homem a discernir fatos escondidos em seu inconsciente e que o espírito lógico não é capaz de compreender.

"...o núcleo da psique (o self) expressa-se, normalmente, sob alguma forma de estrutura quaternária. O número quatro está sempre ligado à anima porque, segundo Jung, existem quatro estágios no seu desenvolvimento. O primeiro está bem simbolizado na figura de Eva, que representa o relacionamento puramente instintivo e biológico; o segundo pode ser representado pela Helena de Fausto: ela personifica um nível romântico e estético que, no entanto, é também caracterizado por elementos sexuais. O terceiro estágio poderia ser exemplificado pela Virgem Maria - uma figura que eleva o amor (Eros) à grandeza da devoção espiritual. O quarto estágio é simbolizado pela Sapiência, a sabedoria que transcende até mesmo a pureza e a santidade, como a Sulamita dos Cânticos de Salomão" (von Franz, 1964).

Outras imagens arquetípicas da anima seriam Afrodite, Helena (Selene), Perséfone e Hécate. Expressões de seus diversos aspectos.

O quaternário, composto de 4 pontas é símbolo de totalidade em diversas religiões. Totalidade de experiência, percepção etc. Uma totalidade que se refere somente à dimensão consciente. O quaternário se opõe a outro importante símbolo, a trindade, sendo o primeiro feminino e o segundo masculino. O Quaternário faz referência a Gaia. É também o símbolo da matéria, portanto da tentação e conseqüentemente do mal.

Com estas aproximações o símbolo da quaternidade fica muito próximo da imagem de Eva. Mulher que se une à víbora, conspiradora e responsável pela tentação. União da mulher e do mal. A discussão da quaternidade como totalidade e integração ou como detentora de aspecto negativo perpassa diversas religiões e toma diferentes caminhos.

A anima, enquanto elemento feminino no homem, se contrapõe ao animus, elemento masculino na mulher, formando um par de opostos como yin e yang do taoísmo, ou Psique e Logos.

Psiquê é fonte de energia e se refere a tudo que é emocional. Faz contraposição ao Logos que é o pensamento que se transforma em palavra no nível lógico. É nele que se formulam conceitos, a visão parada de algo dinâmico. A integração dos dois gera um triângulo, uma trindade, que tem como vértice superior o Pneuma, que é o sopro vital, o espírito, movimento e emoções. Ele é a soma de lógica consciente e emoção.

Além do sopro vital existe o pensamento criativo de Deus que também se relaciona à psique e logos. Nous é o pensamento criador de Deus e se equivale a noem que seria ver com a mente/ intuir/ função referente à Psique, que não passa pelo pensamento, pela explicação e que pode ou não virar pensamento lógico, referente a Logos. O nous divide-se em apofântico (lógico), patético (emocional), poyético (criativo).

Espírito e alma são diferentes quando examinados por este olhar, ainda que no século 9 em concílio católico se afirme que são a mesma coisa. Tendemos aqui a discordar do postulado católico. O Espírito é a ligação a valores que transcendem o indivíduo sendo igual a Pneuma, mas não à alma. Esta equivale a aspectos psíquicos emocionais. Ela é equivalente ao Self mortal enquanto o espírito é a faísca divina no humano, um Self superior, imortal.

O animus intermediário, um mediador, como a anima, tem a imagem arquetípica ligada às múltiplas facetas de Hermes.

Ao masculino, como já dito, se associa o triângulo/ a trindade. A trindade, por sua vez, não é uma forma completa, pois exclui o demônio. O cristianismo lê então a quaternidade não como o todo, mas como obra do demônio.

O triângulo eqüilátero corresponde à trindade cristã que integra Pai, filho e Espírito Santo, onde qualquer um deles pode estar no topo, tanto o pai - o criador de tudo - quanto o filho - único com condição imortal e mortal ou o espírito santo - andrógino dotado de características femininas e masculinas. O Espírito que podemos identificar com a anima e com o animus, Cristo que podemos ver como imagem arquetípica do Self e Deus, além da nossa compreensão e definição em categorias humanas.

Esta trindade pode sim ser vista como o resultado de uma religião patriarcal que coloca a mulher em segundo plano, ainda associada a imagem de Eva e portanto, ao mal. A mulher sem pecado e, portanto colocada como mãe por esta religião - Maria - não é integrada à santíssima trindade e, portanto ao equilíbrio energético que rege a religião católica.

O par de opostos, não só neste caso, é necessário para nossa percepção, não que seja assim, mas é assim que conseguimos perceber o equilíbrio que a energia busca. A comparação é o nosso meio, modo humano, de aprender e se adaptar. Não existe rigidez na divisão de características e funções de anima e animus, Psiquê e Logos, na teoria junguiana.


Sombra:

A sombra funciona psiquicamente como sua própria imagem. Quando se olha para a luz não se sabe da existência da sombra, quando se vira contra a luz a sombra é então percebida.

Esta compreende não só partes da anima ou do animus como também aspectos inconscientes e conscientes que foram considerados indesejáveis, mas que não necessariamente são negativos podendo inclusive ser importantes para o indivíduo, sendo importante que o maior número de aspectos da sombra sejam trabalhados e integrados de forma positiva no indivíduo. Certamente, porém, são características com as quais as pessoas não sabem lidar. Em resumo, é aquela parte abandonada da psique na construção de uma persona. Devido a este caráter depreciativo atribuído aos conteúdos da sombra ela costuma ser relacionada a imagens assustadoras e persecutórias.

O diabo é a sombra do Deus positivo. Nele se encerram as características que não cabem a um Deus que seja só bem. Esta distinção bem e mal é uma projeção humana, uma maneira de classificar o que não se encaixa em nossas categorias, como já dito anteriormente. Os deuses têm bem e mal e o Deus que está por trás de todas as tradições é o mesmo Deus em termos de onipresença, onipotência, onisciência e energia arquetípica.

Integrar aspectos da sombra incluí não só tomar consciência de sua existência como lhes dar um lugar, que no caso de aspectos negativos significa um lugar onde ele possa ser observado pelo sujeito possa adquirir características positivas e não simplesmente satisfazê-lo.

Integram-se aspectos que já fazem parte de nós, esta sombra também é parte do ser. Nada pode explodir em nós que já não existisse de antemão. Os aspectos do arquétipo que se integram já estavam lá antes da integração, seja que arquétipo for.


Persona:

O termo surge do nome das máscaras que eram utilizadas pelos atores no teatro grego. Para Jung persona é o conjunto de características através do qual você se relaciona com o mundo. Ela é construída a partir de tudo aquilo que se seleciona como adjetivo importante para se estar no mundo. Quando um dado é considerado não desejável ele é enviado para a sombra, quando se necessita incorporar algo a persona é na sombra que se vai resgata-lo.

Ela é o espaço que possibilita a incorporação. Lócus em eterna construção, nunca acabado, e sempre referenciado na aceitação do outro. É ela quem dá a forma do humano que se conhece socialmente.

As características da sombra só são incorporadas à consciência e persona humanas quando adaptadas sem oferecer risco a ninguém, porém fazer parte da persona é o único meio saudável que uma característica tem para aparecer.


Self:

O Self nada mais é que todas as possibilidades do humano; sendo assim podemos ver nas palavras de Campbell, 1997, a reflexão de que "os mitos são metáforas da potencialidade espiritual do ser humano, e os mesmos poderes que animam nossa vida animam a vida do mundo".

Jung (1988) estabelece um paralelo entre Cristo e Adão Cadmon, o 2o Adão, o Adão Celeste com relação ao self, porém como relacioná-los tendo Cristo a dimensão e a vivência humana? A união destas duas imagens nos pareceu impossível, sugerem imagens diferentes e expressam elementos diversos.

Este segundo Adão, homo philosophicus é diferente do 1o Adão porque este é imortal e composto de essência pura e imperecível. Na teologia hebraica este Adão é pura energia e um arquétipo do ser humano. As estrelas de Áries são sua cabeça, pulmões em gêmeos, coração de leão, genitais em escorpião, sagitário - coxas, capricórnio - joelhos.

Como pode este ser o arquétipo do ser humano, relacionar-se a Cristo, sendo uma construção sem nenhuma dimensão mortal? O homo Adamicus, o 1o Adão, traz a Eva escondida em seu próprio corpo. Não existe Eva, nem pecado nem contradição neste 2o Adão. Seria um Adão sem conflito com a sombra. Ocorreu a morte do velho Adão e o surgimento de um novo homem. Este Adão era mortal porque era composto de 4 elementos perecíveis. O novo homem surge com o novo Adão assim como a nova humanidade surge com o filho de Deus, mas ainda assim parece ser este Adão Celeste mais uma das expressões equivalentes à ascensão de Cristo, mas não uma figura do mesmo porte se avaliadas globalmente.

A relação do Self diretamente com a imagem de Deus é uma possibilidade apresentada por alguns autores como Silveira (1994), porém Deus é uma figura além da categorização humana e para alinharmos uma figura a "todas as possibilidades do ser humano" esta figura precisa ao menos ter alguma dimensão mortal. Esta linha de raciocínio nos leva a concluir que a analogia com Cristo é a mais acertada e será aqui utilizada por nós.

O Self seria o arquétipo central ligado à imagem do Cristo. O confronto com o numinoso presente na experiência desta situação é sentido como ameaça pelo ego e então se opta pelos rituais. Estes sim separariam a esfera do divino da esfera do humano, O filho de Deus e o Ego.


CAPÍTULO III - HISTÓRICO DE SURGIMENTO E MANUTENÇÃO DAS RELIGIÕES: CRISTIANISMO, ZOROASTRISMO E POLITEÍSMO GREGO.

Zoroastrismo

Nascimento de Zoroastro

No livro de Breuil (1987) temos algumas histórias e polêmicas com relação ao zoroastrismo. Todos os dados referentes a esta religião foram retirados deste livro. Algumas das dúvidas são relativas inclusive à época em que viveu Zaratustra e sua religião surgiu.

Não se sabe com certeza tudo sobre a época na qual Zoroastro viveu. Alguns dizem que Zoroastro viveu em torno de 6.000 a.C. Outros mantêm que ele viveu na metade do século sete a.C.

Zoroastro foi um grande profeta entre os antigos Iranianos. Ele teve seu nascimento, segundo o zoroastrismo, na ordem de adoração estabelecida por Ahura Mazda, o Senhor Supremo do Universo e para realizar a Missão Divina. Seus escritos originais próprios, o precioso Gathas, na linguagem Avesta, indica que ele era uma pessoa embriagada por Deus.

O pai de Zoroastro foi o venerável Porushaspo e sua mãe Dughdhvo. Zoroastro nasceu no oeste do Irã, em Takht-e-suleman, no distrito do Azerbaijão. Ele foi descendente direto na linhagem real, da casa de Manushcihar, o antigo rei do Irã.

O Profeta do Irã, como é conhecido pelos seus seguidores, é Zarathustra (dono do amarelo ou camelos velhos. "Ustra" significa, camelos).
É colocado por esta religião que quando o profeta do Irã nasceu, a natureza regozijou-se. As árvores, os rios e as flores expressaram a sua alegria e felicidade. Os demônios se assustaram. Tão logo a criança nasceu, ele não teria chorado como uma criança mortal comum, mas sim dando uma sonora risada. Muitos anjos e arcanjos teriam vindo para adorá-lo.

O nome de família de Zoroastro era "Spitama", o qual significa, "Branco". Zoroastro tinha dois irmãos mais velhos e teve dois irmãos mais novos.

O nascimento de Zoroastro teria sido miraculoso. A glória de Ahura Mazda desceu do céu e entrou na casa da futura mãe do profeta. Quando ela estava grávida, dizem que arcanjos vieram até ela, adoraram e rezaram para a criança que iria nascer.


Busca da espiritualidade

Zoroastro deixou a sua casa com a idade de 20 anos e viajou de lugar em lugar. Ele levou uma vida de pureza e honestidade, perambulou em florestas, viveu sozinho em cavernas e no topo de montanhas. Ele controlava a sua língua e subjugou a todos os seus sentidos também, era um abstêmio na Sua dieta, dispendia o Seu tempo numa tranqüila meditação. Zoroastro experienciou o Samadhi, ou comunhão com Ahura Mazda, o Senhor Supremo do Universo, no topo da montanha Sabatam, onde teve divinas visões proféticas.

O sucesso da nova religião tornou-se a causa para duas amargas guerras entre o Irã e o Turan. Zarir, o irmão do rei Vishtasp, e o rei em si mesmo, tornaram-se inimigos. Zoroastro morreu com a idade de setenta anos.


Regras, ensinamentos e ritos religiosos:

Ele coincide com o protestantismo no sentido de rejeitar a vida contemplativa, monacal e busca o sucesso na vida econômica e glorifica o trabalho.

A caridade tem um lugar tão elevado quanto no cristianismo "aquele que socorre o pobre faz reinar o Senhor" (Baghan Yt.1)

Tem como datas comemorativas: Jashan - Nela se come um pão sem fermento semelhante a grandes hóstias de nome daruns - Tem o Ano Novo de nome Jamshedi Navroze em 21 de março e outras festas de datas variáveis, mas que consistem na celebração de nascimento e morte de Zoroastro, dia dos mortos, solstício de verão e honra ao anjo da misericórdia.

As cerimônias têm flores e perfumes aos quais se atribuem importantes papéis.

Existe uma "hierarquia do fogo" nos templos sagrados, o de Udvada é venerado como Adar Yuzada, 0 "Filho de Deus". É semelhante à eucaristia que encarna o próprio corpo de Cristo na hóstia.

Os princípios desta religião são a honestidade moral, o cavalheirismo (muito antes da Idade média), seguir a virtude que é o caminho divino e não demoníaco (cultivado com bons pensamentos, palavras, ações pelo culto da honestidade, caridade e da verdade), possuem também forte espírito cívico e tolerância para com as outras religiões.

O conjunto dos textos sagrados chama-se Avesta e erroneamente o batizaram posteriormente Zend - Avesta. Resta hoje ¼ do Avesta primitivo que contava com 21 livros.

Zoroastro afirma que o propósito ético transcende a criação, faz a transição entre pensamento naturalista e ética, libera o divino do antropomorfismo o identificando com o bem soberano.

O embate do bem e do mal é central no zoroastrismo. O bem é aquele que aumenta a vida e é identificado com a luz das estrelas e do Sol, enquanto o mal, impõe obstáculos, gera desequilíbrio entre os opostos. Ele é identificado com as trevas, não só por ausência de luz, mas também como recusa desta. Esta postura de afastamento leva ao congelamento espiritual.

O desenvolvimento do bem se dá pela força centrífuga dos pensamentos, palavras e boas ações (Humata, Hukhta, Huvarshta). Já o mal se manifesta em todo egocentrismo e na partilha de maus pensamentos, palavras e ações (Dushmata, Duzukukta, Duzvarshta).

Ahriman é a entidade que representa todo o mal (entorpecimento, ignorância, imperfeição e embuste) principalmente pela sua limitação e inconsciência e que sendo assim opõe uma grande inércia aos seres vivos através da doença, mentira, crueldade, sofrimento e morte. Esta energia está fortemente presente no coração humano, se manifestando não somente naqueles que escolhem o caminho do mal, mas também daqueles que se recusam a enveredar pelo caminho do bem. Zoroastro julga os homens além da estrutura social, independente de ser rico ou pobre e deseja que os bens pertençam aos homens de bem, pois os outros fazem deles mau uso. Aqueles que subjulgam homens de bem devem ser combatidos.

O papel do bem nesta religião é não só opor-se ao mal, mas também transformar o mal em bem.

Numa humanidade onde o bem e o mal habitam cada um, tornar-se um fiel de Zoroastro e, portanto seguir o caminho do bem, deve-se a capacidade de uma escolha feliz que cria nele a vida espiritual (gaya) e lança a luz de Ahura Mazda na sua alma. Arrastado para uma vida demoníaca o homem só pode abandona-la por uma reação consciente às forças cegas do mal. Caso contrário entra num estado de sombras que engendra a morte espiritual (ajyaiti).

A prática do bem, sendo a caridade de extrema importância e a sinceridade a maior de suas qualidades, encarna na terra um pouco da luz divina de Ahura Mazda. O pior dos maus seria a mentira, pois ela conduziria a todas as outras práticas do mundo de Ahriman.

No dia da Renovação final o salvador cósmico, Soshan, separará os bons e os maus e os primeiros habitarão o reino da justiça, porém deve-se buscar na terra tentar sempre copiar este reino enquanto este dia de divisão não chega. Trata-se de uma ressurreição puramente espiritual. O último salvador seria da linhagem de Zoroastro e nasceria de uma virgem que se banharia no lago onde ele havia plantado a semente de sua doutrina. Este salvador, Saoshyant, de nome Astvat-Arta traria o fogo celeste que atingiria os maus e dotaria os justos de um corpo de bronze.

Depois da morte os justos (Ashavantes) vão para o GaroDemana, casa dos cânticos extáticos enquanto os servidores de Ahriman vão para Drujo-Demana, casa da mentira.

"O Garodman (Paraíso) divide-se em quatro níveis: O dos bons pensamentos, o das boas palavras, o das boas ações e o mais elevado, o da Luz infinita" (Breuil,1987). Há ainda algo semelhante ao purgatório, Hamestagan, para onde vão as almas que cometeram tanto boas quanto más ações. Sraosha é o anjo que acompanha a alma do morto durante os 3 dias que precedem sua passagem pela "ponte Chinvat".

O homem não está só em seu combate existencial. Além do daena (elemento divino e de reflexão consciente) e dos três elementos constitutivos da alma: ahu - elemento vital, baodha - a percepção e urvan - a alma espiritual. Existe ainda o arquétipo celeste que chama a alma à imortalidade, a fravarti.

Após a morte urvan e baodha procuram unir-se a fravarti que os levará à imortalidade.


Catolicismo:

Surgimento - baseado no livro - Evangelho de Marcos - Bíblia:

Uma das mais conhecidas religiões de todo o mundo parte do judaísmo e o antigo testamento por este venerado, deste se distancia ao proclamar Jesus Cristo como o filho de Deus salvador. Da vida de Jesus saíram histórias e ensinamentos compilados nos evangelhos que descrevem sua vida pública.

Jesus teria sido filho de uma fecundação miraculosa da Virgem Maria pelo Espírito Santo. Cresceu em família pobre, quando o povo judeu era escravizado pelos romanos. Jesus soube desde muito cedo que era o filho de Deus. Resistiu a tentação do demônio no deserto, se fortaleceu, operou diversos milagres e teve doze adeptos de sua pregação que foram chamados apóstolos que saíram pelo mundo a pregar seus ensinamentos que se baseavam na fé em Deus sobre todas as coisas, no amor ao próximo e na promessa de vida eterna para o bom. Foi pego pelo governo romano por insuflar o povo contra a ordem e foi crucificado em público.

Seus fiéis acreditam que ele ressuscitou ao 3o dia, subiu ao céu e ficou ao lado do pai. Retornará um dia para o juízo final quando bons e maus serão finalmente separados, os bons levados ao paraíso e os maus lançados ao inferno para todo o sempre.
Análise do Livro de Jó - Bíblia:

É uma imagem da eterna disputa entre bem e mal, sendo o bem Deus e a fé de Jó, sendo o mal Satanás e as torturas que ele infringiu em Jó para conseguir que renegasse de Deus, personificadas nas doenças, na perda total dos bens, nas falas dos amigos, esposa e no escárnio do povo que antes o admirava.

O que chama a nossa atenção nesta luta é que ela se inicia porque Satanás convence Deus a permitir este desafio se retirando do lugar de protetor deixando por muito tempo apenas a fé de Jó combatendo o mal.

Jó nos momentos de maior aflição amaldiçoa o dia em que nasceu preferindo nunca ter nascido, pois então não estaria sob essa provação. Pedindo então à Deus, que lhe envie a morte, não tenta o suicídio, pois isto iria contra as leis de Deus e ele permanece se sujeitando a elas.

Nesta história o mal abate Jó em diversos aspectos: Matam-lhe filhos e empregados, suas propriedades e plantações são queimadas e lhe abate grave doença. "Feliz o homem a que Deus castiga: Não desprezes as correções de Chadai. Ele fere, mas lhe pesa as chagas, golpeia, mas suas mãos também curam". (Pp.11 Cap V)

Esta frase demonstra como pensam as pessoas à volta de Jó. Acreditam que Deus castiga e salva, porém esta punição só vem para aquele que cometeu grande pecado e ninguém acredita que Jó não o tenha feito, além disso, caçoam da permanência da fé dele após tantas provações.

Diante de seus interlocutores - Elifás, Sofar e Bildad, além de Eliú, filho de Baraquel - lista todos os pecados de que se vê acusado e pede a Deus que observe que ele nunca cometeu qualquer destas faltas.

Resistindo às provações tem seu mal cessado e Deus lhe devolve as graças muitas vezes ampliadas.


Mitologia Grega

Baseado no poema Teogonia de Hesíodo - surgimento dos deuses:

Existiam duas teorias de criação do mundo, uma partia de Caos e Éter dos quais descenderiam o Céu, a Terra e Zeus. A outra, mais extensa, trazia a linhagem de deuses dos quais descenderiam os olímpicos. É esta Segunda a que usaremos aqui.

Podemos observar nela, claramente um caminho da energia indiferenciada para diferentes formas de especificidade de ação até, enfim, o homem.

Em Hesíodo temos que depois do Caos veio Gaia e dela Urano. Ela é o feminino imanando o masculino. A primeira polaridade - macho/fêmea, yang/ying, espírito/matéria, estava criada.
Manifestaram-se ainda Tártaro, Érebo, Nix e Eros/Anteros, estes últimos permeiam a tudo inclusive Urano e Gaia.

Destes dois unidos surgem Titãs, Cíclopes e Hecatônquiros, filhos que proibidos de nascer pelo pai cruel ficam presos ao seio de sua mãe. Esta decide se vingar dando uma pesada foice ao filho, o titã Chronos, e este castra o pai e assume seu lugar no trono casando-se com sua irmã, a titãnida Réia (energia da terra).

Este novo casal que governa possuí mais forma e energia mais concentrada que o anterior. Chronos segue os passos do pai e engole os filhos logo que sua esposa os gera. Réia salva Zeus (o caçula) e este quando mais velho retorna para tomar o trono de seu pai. Consegue fazer com que ele vomite os irmãos que engoliu e unido a estes mais os Cíclopes e os Hecatônquiros, que viviam presos ao Tártaro para onde o irmão Chronos os havia enviado, combatem os titãs e os vencem lançando-os ao Inferno mitológico. Gaia enfurecida de ver seus filhos presos assim, une-se ao Tártaro e gera o assustador monstro Tifão que será vencido por Zeus que assume então o reinado dos deuses governando do monte Olimpo.

Os deuses que irão compor o cenário principal da mitologia grega serão os filhos de Réia e Chronos: Zeus - o deus supremo, Posêidon - senhor das águas, Deméter - deusa da agricultura e a mãe carinhosa, Hera - deusa das esposas e a mãe rígida, Hades - deus dos infernos, Héstia - deusa da família e do fogo doméstico. Os filhos de Zeus, Apollo - Deus das artes, do sol e da beleza, Ártemis - Irmã de Apollo, deusa da caça, da lua, da vida selvagem e das virgens, Hermes - Mensageiro dos deuses entre si e com o mundo terreno, Dionísio - Tem subida posterior ao Olimpo e é o deus do vinho, do êxtase e do entusiasmo, Core/Perséfone - Deusa do subterrâneo, filha de Zeus e Deméter e esposa de Hades, e Hefesto - Deus do fogo, dos metais e dos vulcões. Em algumas histórias aparece apenas como filho de Hera, Athena - Deusa da justiça, Ares - Deus da guerra. E a deusa gerada pelas espumas do mar quando fecundadas pelo sêmen do membro cortado de Urano: Afrodite - Deusa do amor e da beleza.

Ao deus Hades coube o mundo do subterrâneo que levou também o seu nome. Para lá iam as almas de todos os mortos que posteriormente seriam divididas indo para um dos 3 espaços deste mundo: Campos Elíseos, Érebo e Tártaro.

Após a morte a alma (psique) do morto era conduzida por Hermes até a barca do Caronte onde se atravessava os 4 rios infernais (caso você pague a moeda de prata que será exigida pelo barqueiro), passa-se por Cérbero, o cão de 3 cabeças e chega-se ao local onde a alma será julgada por Radamanto, Minos e Eaco. Após este julgamento ou ela vai para o Tártaro - morada permanente dos grandes criminosos, ou ao Érebo - local intermediário do qual ela iria para algum dos outros dois, ou aos Campos Elíseos - local agradável e quase paradisíaco onde se aguarda a reencarnação que se dará na forma animal ou vegetal.


Postura Religiosa:

O povo grego vivia então em constante batalha e cada uma das que hoje são cidades, eram então países naquele território.

As pessoas veneravam diferentes deuses buscando conselhos ou graças e não havia uma hierarquia, estando o deus mais ligado à cidade de onde você procedia (se ele era o padroeiro lá ou não) e qual o tipo de favor que você queria (ligado à sexualidade, vitória em guerras etc.). Era costume fazer oferendas e visitar templos, além de se fazer consultas com as sacerdotisas destes lugares.

Esta religião foi incorporada e adaptada pelos romanos quando estes tomaram a Grécia em seu império e hoje não é mais uma religião praticada, porém é muito conhecida e tida como mais um dos grandes traços de influência e convergência do povo grego com toda a civilização ocidental.


Metodologia:

A pesquisa foi desenvolvida primeiramente com a leitura dos materiais, realizando-se a síntese dos textos em fichamentos.

Em seguida houve uma análise desses fichamentos para separação dos textos realmente relevantes, considerando o objetivo da pesquisa.

A última etapa consistiu em comparação e discussão das obras lidas para o andamento da pesquisa e para preparação do relatório.

Toda a bibliografia prevista para a pesquisa, assim como demais fontes de informação, estão disponíveis tanto em bibliotecas como em livrarias, tendo sido, portanto acessíveis aos envolvidos no projeto.

A análise dos dados foi trabalhada sempre se remetendo ao já pesquisado por Jung e buscando-se sempre uma mesma compreensão de todos os envolvidos na pesquisa.


CAPÍTULO V - ANÁLISE DE DADOS:

Estudamos as religiões de acordo com seu surgimento e suas postulações em linhas gerais. Selecionamos, porém o surgimento de seus deuses e/ou grandes profetas e algumas passagens de suas vidas, sua visão do surgimento da terra e da humanidade, da vida após a morte e do fim dos tempos para ilustrar como se aproximam e distanciam as representações míticas dos principais arquétipos.

Dividimos abaixo, em tópicos por arquétipo, para melhor visualizarmos estas semelhanças e diferenças.

Anima: Enquanto elemento feminino presente no homem ele aparece expresso na fantasia individual e nos mitos religiosos na forma de uma mulher, então certamente toda figura feminina trás algo da anima em si, porém nos centrando apenas nas figuras e momentos estudados podemos observar a partir da mitologia grega (religião muito estudada por Jung), algumas imagens que são mais expressivas da análise que Jung faz da anima e seus estágios como: o 1o sendo Gaia e sua energia ainda muito disforme, o 2o Afrodite e sua beleza e sexualidade afloradas, o 3o como Héstia que é apenas energia do fogo da lareira que aquece a união familiar e a sua fé, não tendo sequer forma humana, o 4o estágio seria Athenas que é a própria sabedoria.

Héstia, deusa olímpica pouco citada na mitologia grega, encontra-se em um estágio de adoração semelhante ao da virgem na janela cantada pelos trovadores na idade média. Não possuindo sequer forma humana, cabendo à ela, portanto, apenas o amor de adoração espiritual, sem dimensão carnal.

Core/Perséfone é o mito que expressa o movimento da anima. Aquela que expressa características no mundo aberto, mas possui também uma vida desconhecida num mundo misterioso (hades / inconsciente). Ela se desloca nestes dois mundos e entre características opostas e complementares como ser filha/ esposa, jovem pura/ rainha do submundo entre outras, sempre caminhando entre a consciência e o inconsciente.

A anima é o reflexo humano de uma energia anterior a ela, o que torna muitas vezes difícil encontrar a imagem perfeita que a defina, assim como qualquer arquétipo.

As figuras femininas do cristianismo trariam os estágios da anima também, porém tendo suas narrativas mais lineares que as gregas, torna-se possível encontrar numa mesma figura uma transformação de estágio da anima... A Virgem Maria, aquela que concebe sem pecado, mostra o 3o estágio da anima enquanto a figura primitiva de Eva expressa ainda o primeiro. Maria Madalena mostra o trânsito entre mundos diferentes que a anima tem, e encarna a possibilidade de transformação da anima. Aquela que é lasciva e sensual encarnando o 3o estágio, e é delegada a estar na sombra para a sociedade em que vive, torna-se devota e religiosa se colocando sob a luz numa postura de amor espiritualizado. A Maria Madalena é ao mesmo tempo transformação na relação com a anima, e símbolo da característica da sombra que pode ser trazida para a persona de forma positiva.
No Zoroastrismo as figuras femininas são raras, mas se mantém a imagem da virgem que fecundada sem pecado trás em si a semente da fé elevando o amor à espiritualidade como o 3o estágio descrito por Jung.

A anima idealizada aparece como a virgem fecundada em diversas religiões. A própria mitologia grega traz à luz a imagem da virgem por diversas vezes.

A própria devoção religiosa e a possibilidade de compreender e aceitar o irracional são características da anima e certamente aparecem em todas as expressões religiosas e em seus mitos.

Animus: Enquanto elemento masculino na mulher é aquele que se opõe e complementa a anima. Na mitologia grega Jung identificou Hermes como imagem arquetípica do animus. Assim como Perséfone ele se desloca entre mundos conduzindo almas e levando mensagens, ficando assim ainda mais clara a sua função de mediador. É ele quem conduz as almas ao Hades e leva recados do Olimpo à terra mudando de postura (comunicador, ladrão e garoto brincalhão) e inclusive de nome em alguns momentos. Porém não é o único que detém as características do animus. Vemos na figura de Apolo e de Zeus a expressão da racionalidade e da lógica, e se pensarmos no equilíbrio da energia arquetípica no encontro do par de opostos, ela está expressa nos casais divinos mesmo quando trocados os pares de deuses.

O Zoroastrismo é repleto de figuras masculinas, mas o que podemos entender como expressão do animus de forma mais clara é a valorização da capacidade de discernimento lógico entre bom e mal daquele fiel que terá de escolher um caminho. O bem é também capacidade de escolha, manutenção no caminho da verdade e clareza da diferença dos dois lados. A ignorância residiria no mal e o conhecimento aconteceria de forma racional e consciente. Seria então imagem do animus a própria figura de Zoroastro, aquele que caminhou continuamente rumo ao conhecimento e a verdade.

Na história de Jó do antigo testamento, apenas um personagem feminino aparece e todas as figuras masculinas que se põem a dialogar com Jó trazem em suas postulações uma conclusão apoiada na racionalidade e na ponderação dos fatos. Colocam-se expressando este aspecto do animus, mas que neste mito perde força visto que a superação deste conflito se dá pela fé inabalável de Jó. Aqui o animus traz características negativas da sombra, mas no processo de transformação que sofre no encontro com a fé, o desfecho é positivo, trazendo a tona características positivas de Jó.

Persona: A persona é fachada, através da qual agimos no mundo, com referência no que é adaptativo do ponto de vista da sociedade. Com sua imagem podemos identificar o deus da mitologia grega Dionísio, aquele que cria o vinho e assim assume uma nova forma de ser (uma outra máscara).

Ela tem sempre a forma que é possível diante da sociedade segundo o indivíduo. Uma boa imagem para esta característica é Zeus que assumia diferentes formas para conseguir realizar suas paixões terrenas. Metamorfoseava-se em animais e seres humanos para obter o que queria.

Tanto no zoroastrismo quanto no catolicismo uma imagem "tolerável" aos humanos para o recebimento de mensagens divinas é a imagem do anjo que traz a boa nova. A cada estágio de ascensão de Zoroastro no caminho da verdade surge um anjo. Na Bíblia católica esta imagem também é muito comum, porém um bom paralelo para a persona, enquanto capacidade de expressão de um humano para a humanidade, são os apóstolos. Eles aprendem com Jesus a palavra divina e a levam para o mundo, cada um com sua especificidade, nenhum deles pode ser igual a Cristo, nenhum deles pode ser o Self, porém podem ser santos cada um dentro de sua possibilidade. São limitados e ao mesmo tempo são os responsáveis pela expressão do catolicismo à humanidade.

Sombra: A imagem da sombra, aquela que está submersa, distanciada da luz e cujos conteúdos só podem de lá ser retirados quando passíveis de serem incorporados ao cotidiano do indivíduo sem prejuízo para este, é a imagem de Tifão guardando Zeus / animus preso ao Tártaro. Este é um monstro horrível e assustador, gerado do ódio e cuja função é destruir, ele precisa ser combatido para que os heróis(animus) vençam, assim como em diversas histórias gregas.

Aqui vemos o postulado por Jung de que aquele que não toma consciência de sua sombra por ela é dominado ou sente permanentemente sua ameaça de dominação. Esta ameaça deve ser destruída.

No Zoroastrismo a sombra seria Ahriman aquele que tenta o fiel com o mundo da mentira e da maldade. O que é postulado porém, é que este mundo deve ser negado em favor de outro que seria o da luz de Ahura Mazda. Ahriman se impõem pela ignorância, mas conforme se escolhe o caminho da verdade vai ficando cada vez mais claro quais aspectos devemos colocar em nossas vidas e quais devem ser abandonados. Tudo aquilo que é negativo e do qual devemos nos afastar é atribuído ao secto de Ahriman.

Satanás em Jó se aproxima de Ahriman, porém ao invés de ofertar um caminho equivocado ele seduz a Deus. Ele é autor de diversas perversidades e crimes contra Jó, mas este segue fiel ao seu caminho de fé. A tentação da sombra aqui era a de abandono da religiosidade, mas isto não acontece. Podemos ler as falas dos amigos de Jó como expressões da sombra dele, porém este conflito tem como desfecho o fortalecimento da fé e a superação do estado de disputa da sombra e da luz. O Satanás vai retornar em outros momentos da Bíblia como sombra, voz da dúvida dos fiéis em momento de provações e possibilidade de questionamento antes da transformação e do fortalecimento do ser e de sua religiosidade.

Numa das passagens da Bíblia, Jesus expulsa comerciantes de um templo judeu. Cristo ao expulsar os comerciantes do templo mostra uma possibilidade de lidar com a sombra, diante de um aspecto negativo desta, ele (o aspecto) é retirado daquele lugar que não é o seu e mandado para um lugar onde não possa fazer mal. Fora do templo.

Self: O todo, a multiplicidade de caminhos e escolhas, o possibilitador das transformações, aquele que engloba todos os outros arquétipos, tudo isso é o Self. Sua expressão geralmente se dá numa figura altamente reverenciada na religião e/ou um mito de grande poder. Certamente cada mito será a expressão de algo do Self, mas buscamos aqui um que possa expressá-lo o mais próximo possível de sua magnitude.

Ele é uma roda que gira com um ponto imóvel central. Aquele que se mantém imutável e estático apesar de estar em constante rotação.

Na mitologia grega poderíamos resgatar o Caos, pois é dele que emanam todas as energias melhor organizadas, caminhando até os deuses olímpicos e a humanidade. Ele é o início de uma ampla cadeia de possibilidades, porém ainda muito disforme, portanto para falar de Self não podemos esquecer da energia e potencialidades de cada um de seus descendentes neste caso.

O Zoroastrismo tem na polarização de seus deuses o Self. Ahura Mazda de onde toda a bondade emana e cuja luz ilumina aquele que segue o caminho da verdade e da caridade, e Ahriman aquele que rege o embuste, a farsa e a crueldade. Numa religião de transição do politeísmo ao monoteísmo apenas na dupla preponderante de opostos é que podemos encontrar a totalidade.

A expressão do Self na religião católica já foi tida por Jung e por nós referendada como sendo a figura de Jesus Cristo. Aquele que é divino, mas também humano, reunindo as qualidades e também as incertezas de ambos os estados. Jesus é aquele que aquece e ilumina a humanidade, por isso tem seu corpo simbolizado na hóstia que alimenta o corpo e a alma, além de ter a forma do sol que é aquele que nutre e aquece a humanidade como o filho de Deus.

Resumindo, portanto, O si mesmo, Self, teria Cristo como imagem arquetípica. Este tendo como representação o ouro, o Sol, o novo Sol (fogo celeste) que ilumina a vida espiritual. O fogo é o símbolo da vida desde Heráclito. Estas representações ficam claras na missa pelo cálice de ouro que contém o vinho tornado sangue de Cristo e a hóstia redonda. A relação dos três elementos: Cristo, Sol e Self é a daqueles que dão a vida e uma consciência que é fundamental.

Deus estaria acima destas categorizações sendo detentor e expressão de cada característica possível, seria uma energia para além do Self e difícil de ser discutida nestes termos em qualquer religião monoteísta.

Bem e mal: O Bem e o Mal em conflito formam pilares de sustentação de diversas religiões. Na mitologia grega apesar de todos os deuses terem aspectos positivos e aspectos negativos de acordo com a cultura daquele povo, com o passar do tempo, certos deuses que tinham como características preponderantes aquelas bem vistas na sociedade foram ganhando mais espaço junto aos fiéis do que outros.

Além disso em algumas histórias formam-se polaridades de grupos que são vistos como bons e os grupos dos maus. Uma destas é a história do duelo entre olímpicos e titãs quando fica claro que os deuses do olimpo representam o bem. O bem está aqui ligado à superação de obstáculos, vingança de injustiças passadas e a chegada do novo. É como se o bem fosse sempre aquele que está por vir.

No Zoroastrismo o duelo bem e mau é encarnado nas figuras arquetípicas de Ahura Mazda e Ahriman como já explicado anteriormente. Eles disputam o coração e a lógica da humanidade se valendo da sinceridade e da bondade ou da mentira e da crueldade, respectivamente. O bem é aquele que liberta da ignorância, que traz conhecimento, que se abre pela possibilidade de escolha.

No catolicismo apesar da existência da figura do demônio é a providência divina que rege a tudo, inclusive Bem e Mal. Deus castiga, cura, salva e fulmina. O merecimento do bem ou do mal depende da humanidade andar ou não sob os desígnios de Deus. É ele quem permite que Jô sofra e é ele quem escolhe a hora de parar e lhe devolver sua felicidade multiplicada.

Considerações Finais:

Concluí-se que a hipótese inicial estava certa, assim como Jung em suas diversas pesquisas pode-se aqui encontrar diversas expressões semelhantes dos mesmos arquétipos nas diversas religiões estudadas.

Imaginamos que o padrão se repita nas religiões que aqui por diversos motivos não constam, porém valeria uma pesquisa. Outro dado que seria relevante seria estudar onde se distanciariam na expressão dos arquétipos, religiões que partilham livros e marcos religiosos em sua história, mas se constituíram de forma diversa como o catolicismo, islamismo e protestantismo.

Espera-se, concluindo, que esta tenha sido mais uma pesquisa a fim de contribuir na compreensão da teoria junguiana e na demonstração da importância da busca do sagrado para a humanidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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Boccalandro, N. E. R. A Nova e a Velha Mitologia. São Paulo: ed. Psico-pedagógica. 2002.
Breuil, Paul Du. Zoroastro: Religião o Filosofia. São Paulo: ed.IBRASA, 1987.
Campbell, J. O poder do mito. São Paulo. ed.Associação Palas Athena: 1999.
Elíade, M. História das crenças e das idéias religiosas. Rio de Janeiro: ed.Zahar.1984.
Elíade, M. Tratado de história das religiões. São Paulo: ed. Martins Fontes. 1998.
Gaarder,J. & Notaker, H. & Hellern, V. O livro das religiões. São Paulo. ed. Cia das Letras. 2001.
Hesíodo, tradução Cerqueira, A. L. & Lira, M. T. Teogonia. Rio de janeiro: ed. EDUFF.
Jung, C. G. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: ed.Vozes. 1995.
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Jung, C. G. (org.) O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: ed.Nova Fronteira. 1964.
Jung, C. G. Psicologia da religião oriental e ocidental. Petrópolis: ed. Vozes. 1988.
Jung, C.G. Psicologia e religião. Petrópolis. ed. Vozes. 2000.
Jung, C.G. Aion. Petrópolis. ed. Vozes. 1997.
Sharman-Burke, J. & Greene, L. O taro mitológico. São Paulo. 2000.
Silveira. Mito, rito e religião. www.mundodosfilósofos.com.br. 1994/ acesso em 20/02/2003.
Von Franz M. L. Cap 3- O processo de individuação in O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: ed. Nova Fronteira. 1964.

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Fonte: http://www.pucsp.br/clinica/boletim19_05.htm


prometeuz wrote on May 18, '06
Adorei.
helamor wrote on May 18, '06
Adorei.
Eu tb!!
Obrigada pela visitinha e comment!!
Grande beijo,
Hela.
klimstar wrote on Nov 4, '06
Esse assunto é muito interessante. Obrigado por disponibilizar material de excelente qualidade. Estudarei com cuidado e depois comento.
Grande abraço!
helamor wrote on Nov 4, '06
Esse assunto é muito interessante. Obrigado por disponibilizar material de excelente qualidade. Estudarei com cuidado e depois comento.
Grande abraço!
Sim, é excelente este texto, foi um grande achado!!
Eu vou armazenando tantas coisas aqui, pra poder também voltar depois e rever e rever, como gosto de fazer com as coisas q mais me interessam, que algumas até me esqueço que tenho... rsrs... principalmente em momentos como agora, onde tenho tanto em que pensar e fazer...
Graças a vc eu pude lembrar deste texto, reler, e anotar coisas muito importantes pra meu próximo trabalho (sim, mal acabo de montar a exposição, na sexta, cuja mostra tem abertura na quinta próxima, no dia 09/11 - a qual estás convidado também, veja o convite aqui: http://helamor.multiply.com/photos/album/105 -, e já tenho que me dedicar a próxima tarefa de vida, pro dia 23/11...), muito obrigada!!
Assim que tenhas tempo pra se deter no texto com calma, gostaria muito de ler aqui seus comentários a respeito, principalmente depois que vejas também os meus trabalhos - http://helamor.multiply.com/photos/album/62 -, e estabeleças as relações entre eles e o texto...
Andei por sua página um pouco, apenas o tempo pra não me dispersar muito do que preciso concluir, mas já foi o suficiente pra perceber a qualidade da mesma. Meus Parabéns!
Em especial, adorei ler ali este maravilhoso poema de Hélio Jenné:

Alquimista

Quisera fosse um alquimista

Para poder transformar

Minha derrota em conquista

E minha imensa tristeza

Em um punhado de alegria.

A saudade seria o elixir

Com o qual eu brindaria a dor de existir.

Então poder rir em gargalhada

Pela miséria superada.



Hélio Jenné

Somos todos alquimistas, de alguma forma... ou quando encontramos esta...

Sejam bem-vindo, querido pisciano!!
;)

Bejins,
Hela.
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